sábado, 11 de outubro de 2008

UM NOVO CAPÍTULO PARA DIRA PAES


JORNAL O LIBERAL
CADERNO MAGAZINE
Edição de 04/10/2008

EXCLUSIVO
Atriz lança seu
primeiro livro
e revela a emoção
da experiência

CARLOS CORREIA SANTOS
Da Editoria

Era precisamente nove horas da noite quando a reportagem entrou em contato com Dira Paes, na última quinta-feira. Inevitável o receio. Abordar a esta hora uma artista com uma agenda tão agitada? Enquanto os números do celular eram discados, um pensamento insistente: ela deve estar exausta. Basta fazer um rápido balanço: a paraense está filmando a nova película de Tizuka Yamasaki; está vivendo todas as polêmicas e apaixonadas repercussões de “A festa da menina morta” (primeiro filme dirigido por Mateus Nachtergaele, no qual faz uma especialíssima participação); está se preparando para voltar às telas da Globo depois do sucesso com a inesquecível Solineuza (o retorno acontecerá com a personagem Norma, na próxima novela das oito, Caminho das Índias, escrita por Glória Perez); está envolvida, ao lado do produtor Emanoel Freitas, com a realização da nova edição do Festival de Belém do Cinema Brasileiro (que acontecerá na capital paraense de 27 de outubro a 02 de novembro), é mãe recentíssima de Inácio, acabou de reformar a casa e ainda decidiu se lançar como escritora infanto-juvenil.

Não é pouca coisa. Mas, enfim, alguém com tantas ocupações talvez nem durma. Nove horas da noite pode ser apenas mais um momento essencial na jornada. E Dira atende ao telefone como quem realmente ultrapassa os tempos. É possível sentir na voz a doçura do riso. A vontade de partilhar suas vivências. Sim, ela quer contar. Quer dizer tudo sobre o lançamento de “Menina flor e o boto”, sua corajosa investida no mundo das letras. A obra será lançada hoje, na capital carioca, das 16h às 20h, no Pólo de Pensamento Contemporâneo. No dia 7, os autógrafos acontecem em São Paulo. No final das contas, uma conclusão: Dira não dorme e faz sonhar. Nessa entrevista exclusiva que ela concedeu ao Magazine é possível entender isso:

Um livro infanto-juvenil, Dira? Como é isso? Por que a decisão de se tornar escritora a essa altura da tua carreira?

DIRA PAES: Bem, esse é um trabalho da Língua Geral. Em março, essa editora lançou o projeto Mama África. Quatro escritores e quatro artistas plásticos africanos foram convidados a se unirem para criar livros sobre as lendas de seu país. Obras voltadas para o público infanto-juvenil. A editora decidiu lançar aqui entre nós a segunda versão da iniciativa, batizada de Mãe Brasil. Uma série para reavivar nossas lendas indígenas. Tive a honra de ser escolhida para escrever uma das histórias, com ilustrações do PP Condurú. Quando recebi o convite, logo me lembrei de algo relatado por minha mãe, dona Flor: ela dizia que minha avó tinha visto o boto transformado em homem. E eu sempre achei isso muito próximo da realidade. Nunca contestei. Então, aceitei o desafio de escrever. Sabendo que era rigorosamente um desafio. Eu precisava disso. Tomei a lenda do boto como pano de fundo e decidiu recontar o universo da infância da minha mãe. Um ambiente fascinante de criança que teve o rio como sua rua.

E como foi esse enlace com o PP Condurú?

DIRA PAES: Foi maravilhoso. O resultado muito me honra. É uma experiência única poder dialogar com o universo infanto-juvenil ao lado de um artista da importância e representatividade do PP.

Mas afinal o que as páginas do livro têm a sussurrar para as crianças e jovens que vão ler?

DIRA PAES: Elas vão se encontrar com a floresta amazônica. Sinto que essa obra representa um novo caminho para mim. Uma nova porta que se abre. A Amazônia ainda precisa ser desbravada pelos brasileiros. A Amazônia é imensamente rica e as crianças precisam descobrir isso.

Pois é, por que tanto persiste essa impressão de que o Brasil não nos conhece? Por que ainda há tanta resistência em se entender melhor a cultura da região Norte? O que falta para...

DIRA PAES (A vontade de responder é tanta, que a atriz interrompe, pede mil desculpas e, sempre com o traço de sorriso na voz, vai dizendo): Falta intercâmbio. As informações divulgadas sobre a região são muito superficiais. Falta mais vivência amazônica para os brasileiros. Qualquer pessoa que respire às margens de um rio da Amazônia... qualquer pessoa que tenha essa vivência muda para sempre. “Menina Flor e o boto” é um livro que tenta traduzir isso que é tão difícil de traduzir. Costumo dizer que a única experiência que deve se comparar a conhecer a Amazônia é conhecer a lua.

Então, não há como negar: a menina de Abaetetuba se manifesta vivamente na escritora Dira Paes...

DIRA PAES: Na verdade, ao contrário do que se pensa e se divulga, eu tive uma infância bastante urbana. Mas também vivi muito a magia do interior. Passei muitas férias em Abaetetuba, Capanema. Minhas raízes são muito evidentes. E isso sempre me trouxe muita felicidade. Tenho orgulho de ser quem sou. De ter as origens que tenho.

E a maternidade? Ela deu algum colorido a mais a tua alma de artista?

DIRA PAES (breve silêncio, mesmo a impessoalidade da ligação telefônica deixa escapar a emoção. Vem, por fim, a resposta): A maternidade justificou todo o tempo que vivi até hoje. Penso que da mesma forma que as pessoas precisam conhecer a Amazônia para entender a Mãe Natureza, há mulheres, como eu, que precisam viver a maternidade para se entenderem melhor.

Uma mudança brusca de assunto: o filme “A festa da menina morta” está repercutindo bastante. Causou alvoroço em Cannes. Gerou críticas apaixonadas no Festival de Cinema do Rio. Qual a importância desse trabalho para ti?

DIRA PAES: O Mateus (Nachtergaele) é um artista único, em carne viva, daqueles que rompem com as fronteiras. É uma sorte imensa tê-lo entre nós. Quando soube do projeto, pedi imediatamente para fazer um papel. E estou muito feliz. O filme encanta pela riqueza, pelo requinte. A sinergia é ímpar. O filme é duro. E mostra nossa Amazônia com uma grandeza sem igual.

Bem, seria imperdoável não perguntar: e a novela das oito? Quando seguir por Caminhos da Índia, que trilhas novas vai tomar a tua carreira?

DIRA PAES: A novela deve começar em novembro. Farei uma personagem chamada Norma, que só aparece mais para frente. Bem, estou há oito anos longe das novelas. Tenho que confessar: estou ansiosa. Uma ansiedade boa. Quero reviver a experiência. A novela é um formato com características próprias. Não é fácil. Quero fazer esse trabalho com muita dedicação para que o público mate a saudade. Especialmente o público infantil que tanto me acarinhou através da Solineuza. Público que também abraço através do lançamento de “Menina flor e o boto”.

UM POUCO MAIS

A autora
Dira Paes nasceu em Abaetetuba, no Pará. É notável atriz de cinema, minisséries, telenovelas e teatro. Menina Flor e o Boto marca sua estréia na literatura e o início de uma promissora aventura artística.

O ilustrador
P.P. Condurú nasceu em Belém. É uma das principais referências artísticas do Norte do Brasil. Participou de várias exposições coletivas e mostras, expondo telas que dialogam com a cultura e as riquezas naturais da região Amazônica.

A coleção
A coleção Mãe Brasil pretende resgatar lendas indígenas, recriadas por alguns dos mais importantes artistas brasileiros. Livros que juntam as artes plásticas à literatura e a tradição à modernidade. Livros para as crianças, mas também para os seus pais. Livros para colecionar.

OS CEM ANOS DE UM POETA SEM PAR




JORNAL O LIBERAL
CADERNO MAGAZINE

Edição de 10/10/2008

PARA LEMBRAR
Centenário do autor
Antônio Tavernard
gera debate sobre
memória cultural

CARLOS CORREIA SANTOS

Da Editoria

'O que esperar de um poeta que explica: 'Há sempre no caminho alguém que espera / e na distância alguém que não vem mais / Mas a esperança é como a primavera / que até nas pedras faz florir rosais'? Como explicar um artista que define: 'a vida é louca / dura o que dura um riso numa boca'? Um poeta assim não se define, não se explica. Porém, um poeta assim espera. Espera por reconhecimento. Aguarda por aplausos e respeito.

Exatamente no dia de hoje completaria cem anos o autor dos versos que abrem essa matéria: Antônio de Nazareth Frazão Tavernard. Ou, simplesmente, Antônio Tavernard. Um dos mais significativos escritores brasileiros nascidos no Pará. Além de criador de estrofes raras, foi contista, cronista, letrista e dramaturgo. Produção que lhe rendeu o título de patrono da recente XII Feira Pan-Amazônica do Livro. Entre outras grandes criações, são de sua autoria a letra do hino do Clube do Remo e as letras das canções 'Foi Boto Sinhá' e 'Matinta Pereira', feitas em parceria com Waldemar Henrique. Apesar de toda essa grandeza, Tavernard ainda aguarda. Sua obra exige maior aclamação pública, maior atenção das esferas acadêmicas e do próprio ciclo literário. A casa em que nasceu, em Icoaraci, está atualmente em ruínas e serve de guarida para grupos de assaltantes. Para os estudiosos do escritor, Tony – como ele era afetivamente conhecido – ainda parece vagar pelo caminho que separa as pedras dos rosais.

'Tavernard prova que não devemos falar em autor paraense. Ele está diretamente ligado ao melhor das letras brasileiras. Ele é um grande escritor nacional', defende a professora de Literatura e também poeta, Walkíria das Mercês. E ela acrescenta: 'Trata-se de um artista com valores muito próprios. Ele não deve nada a nomes como Raul Bopp, por exemplo'. Outro professor de Literatura Brasileira que faz questão de expressar sua admiração é Guilherme Júnior, da UVA: 'Estamos falando de um criador que se ligou a várias estéticas. Ele viveu o modernismo na Amazônia, mas bebeu da fonte do simbolismo. É possível sentir relações de sua escrita com nomes como Augusto dos Anjos. Não bastasse tudo isso, Tavernard foi pós-modernista'.

DRAMA

Um dos caminhos mais comuns para se falar da trajetória de Antônio Tavernard é o que leva ao drama pessoal que o artista viveu. Aos 18, foi diagnosticado com hanseníase. Pediu para que a família construísse um rancho nos fundos de sua residência – situada numa das esquinas do cruzamento entre a Generalíssimo e a Conselheiro – e ali se dedicou vivamente à escrita, sabendo que seu destino era a morte precoce. O que, de fato, aconteceu em 1936. Para Walkíria, a agonia íntima do escritor não tem nenhuma relação com a intensidade de seu talento: 'Ele já era um grande poeta antes de ficar enfermo. A doença trouxe um comprometimento físico apenas. Sua poeticidade foi maior que tudo'.

Outra professora de Literatura apaixonada pelo bardo nortista é Sheila Maués. Ela afirma: 'Tavernard é um artista da palavra que permanece sempre novidade. É, sobretudo, um experimentador de novas possibilidades poéticas, como também o foram os grandes nomes das artes de sua época. Como homem lúcido que foi, não permaneceu quieto e resignado enquanto o mundo inteiro ou seu universo particular decaíam'. Guilherme Júnior complementa: 'Uma das principais habilidades dele foi projetar uma visão lírica e poética da Amazônia. É possível afirmar que ele incluiu a região amazônica no cenário nacional, assim como fizeram Mário e Oswald de Andrade'.

RESGATES

O peso da obra do poeta lhe garantiu na última Feira do Livro ciclos de debates e a criação de uma exposição especial que permanecerá aberta ao público paraense na Biblioteca Pública Arthur Viana, do Centur. 'Iniciativas que já começam a surtir efeitos. Temos informações sobre vários trabalhos acadêmicos de graduação e pós-graduação que estão se desenvolvendo a partir das palestras da Pan-Amazônica', conta Sheila. Entretanto, a maioria dos olhares que têm se voltado para o poeta são mesmo os do desconhecimento. Claudiane Guimarães, 25 anos, esteve na Pan-Amazônica e confessa seu espanto: nunca tinha ouvido falar sobre o escritor. 'Estou fazendo curso de Letras e afirmo: não conheci Tavernard nem na escola, nem na universidade. Acho lamentável'.

Walkíria das Mercês não poupa palavras sobre a questão: 'Precisamos acabar com essa acomodação e com esse preconceito que nos afasta dos nossos patrimônios culturais. Temos que exigir mais ações dos órgãos governamentais, das universidades, das academias de letras'. Guilherme Júnior faz mais alertas: 'Precisamos produzir estudos sobre a recepção da obra dele. Outra coisa fundamental: além de lutarmos pela republicação de seus livros, precisamos ter mais acesso a materiais raros sobre o autor, como os que estão na Academia Paraense de Letras'.

As páginas da esfera administrativa, contudo, se abrem para dar algumas boas notícias. O diretor cultural da Secretaria de Cultura do Estado (Secult), Carlos Henrique Gonçalves adianta alguns projetos para a preservação do legado de Tony: 'Esse ano, iniciamos um processo destinado a revelar a importância da obra do Tavernard. Os festejos em torno do centenário são importantes. É maravilhoso saber que meio milhão de pessoas esteve em contato com seu universo na Feira do Livro. Com relação à questão do patrimônio físico, já iniciamos as obras de escoramento das paredes da casa em que ele nasceu. Além disso, devemos fazer a edição histórica de duas de suas obras: Fêmea e Almas Tropicais'.

Assim, esperam os leitores. Porque há sempre nos caminhos do esquecimento leitores que esperam por talentos que fazem brotar rosais em pedra e provam que a vida, mesmo durando o riso de uma boca, pode ter a eternidade da emoção. Esperam os leitores por um poema que parece tão justo: respeito para Antônio Tavernard. 'Artistas como ele, são importantes porque transformam o panorama da literatura de um lugar e transformam o tempo com sua criatividade', arremata Sheila Maués.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

OUTRAS CENAS, OUTROS ATOS...



Abaixo, matéria publicada na capa do caderno MAGAZINE, de O Liberal, em 30 de setembro de 2008.

ESPECIAL
Teatro paraense
assiste o surgimento
de novos artistas
em várias frentes

CARLOS CORREIA SANTOS
Da Editoria / Magazine - O Liberal

Antes, bem antes do famoso “ser ou não ser”, o teatro era. O teatro é. O teatro sempre será. A arte teatral é contestadora, é revolucionária, é inquietante, é inovadora. Então, não há como duvidar: quando esse gênero se reconstrói, o lugar comum se descortina e a criatividade ganha a chance de renascer. O movimento teatral paraense parece estar vivendo um desses momentos de reinvenção. São vários os recém surgidos grupos, produtores, atores, diretores e dramaturgos que se mostram decididos a protagonizar outras cenas, outros atos para a cultura local.

Mas como todo exercício artístico exige solidez para ser justificável, entra em foco a pergunta: o que, de fato, esses novos grupos têm a apresentar? Quem são e o que realmente querem esses novos personagens dos nossos tablados?

“Quero que as pessoas se sintam menos solitárias. Decidi me dedicar ao teatro aqui para tentar fazer o público um pouquinho mais feliz. Uma tarefa dificílima e arrogante”, polemiza o jovem ator, diretor e dramaturgo Saulo Sisnando. Autor dos espetáculos “Útero”, “Pop Porn” e “Cartas para Ninguém” – recentemente montados na cidade com considerável repercussão e nenhum patrocínio oficial - , o artista se assume um empreendedor da atual geração: “A simples escolha de trabalhar com teatro aqui já me torna um empreendedor. Porque é muito difícil. Só que é difícil trabalhar com teatro em qualquer lugar. Tenho amigos no Rio e em São Paulo que estão ralando do mesmo jeito. Sei que até na Europa e nos EUA é complicado viver de teatro. Mas o importante é que faço o que gosto, do jeito que gosto e acredito”.

CORAÇÃO

A expressão corporal, a fala, tudo nas performances do jovem dramaturgo e diretor Haroldo França reinterpreta o sentimento. Para o artista, criador do grupo “Teatro em Cores”, investir tão cedo nas trincheiras da encenação significa colocar o coração no palco. “Tudo se resume ao amor. Meu grupo é formado por gente apaixonada. Nosso maior objetivo é tocar as pessoas com a arte. Ficamos muito felizes quando ouvimos o depoimento de algum espectador que vem nos contar que se sentiu mexido por nosso trabalho. Nesse momento dizemos: vale a pena. E muito”, afirma Haroldo após realizar uma temporada experimental de sua peça “Jogo de Sete”. A produção ganhou sessão especial para ser vista e gerar críticas que possam melhorar a obra posteriormente.

Já os integrantes do recém fundado grupo Teatro do Ofício não fazem cena. Eles afirmam sem medo que estão passando por uma fase única. Quando ainda viviam a preocupação de legalizar a trupe, conquistaram uma interessante vitória. Os jovens artistas tiveram o projeto de montagem do espetáculo infanto-juvenil “Uma Flor para Linda Flora” selecionado no Edital Estadual de Fomento às Artes Cênicas, promovido pela Secretaria de Cultura do Pará, no início do semestre. Agora querem se dedicar à experimentação: “O surgimento da companhia foi conseqüência de anos de parceria em outros grupos, além de uma simultânea insatisfação e ansiedade naturais de experimentar uma trajetória autoral”, explica um dos membros, o ator e produtor Stéfano Paixão.

EDUCAÇÃO

Como há sempre mais coisas entre o céu e a terra do que suspeita nossa fã filosofia, num outro viés de interesses, há quem aposte numa concepção que se mostra cada vez mais oportuna: a arte-educação. “Queremos educar. Resolvemos montar nosso grupo para tratar de temas como meio ambiente e o folclore”, revela a atriz Jaque Tedesco, integrante da novíssima companhia “Porta de Entrada”, que há pouco levou ao cartaz o espetáculo “Super Heróis da Floresta”. E ela explica que sua turma decidiu investir no aspecto estrutural para vencer o desafio de se manter no cenário local: “Contamos com aproximadamente 16 pessoas, entre administração, direção, atores e dançarinos. O diferencial do grupo é que somos quase todos pedagogos”

Mas o compromisso de educar através da arte assume feições mais sutis entre os novos agentes teatrais da cidade. E, ainda assim, grande é a luta para receber aplausos. Envolvido há pouquíssimos meses com o desafio de erguer a estrutura de uma peça, o jovem ator e recente produtor Márcio Mourão decidiu apostar nas comemorações do centenário do poeta Antônio Tavernard para encarar a missão de trazer à ribalta o espetáculo “Duelo do Poeta com Sua Alma de Belo”, inspirado na vida e na obra do escritor nascido em Icoaraci. Apesar do projeto também ter sido selecionado no Edital da Secult e ter estreado na última Feira Pan-Amazônica do Livro, muitos têm sido os obstáculos: “As coisas são mais difíceis para quem está iniciando. E eu nem falo da questão do patrocínio que passa longe, longe de nós. Falo mesmo questão dos apoios. Salvo raras exceções, os apoiadores tendem a desconfiar dos novatos. Eles acham, muitas vezes equivocadamente, que não oferecemos possibilidade de retorno”.

Também representante do atual cenário cultural, a produtora Tati Brito vai além: “Acredito que, pelo fato do teatro feito aqui ainda estar em fase de formação de platéia e de público pagante, sobreviver disso ainda fica difícil. Só conseguimos sobreviver com a ajuda das leis de incentivo. É problemático saber que as pessoas reclamam de pagar vinte reais para ver uma peça no espaço Cuíra, por exemplo. Principalmente quando sabemos que peças vindas de fora fazem lotar o Da Paz”

CONVICÇÕES

Em meio a todo esse conflito, o texto dado por Jaque Tedesco acaba se tornando relevante: “As dificuldades são enormes mesmo. Enormes. Mas o fato de sermos independentes nos faz aprender muita coisa”. Carlos Henrique Vieira, cenógrafo do grupo Ofício, ressalta seu ponto de vista: “O lado positivo das rupturas é a oportunidade de reciclar as gerações de artistas teatrais, de injetar fôlego novo. Cabe a nós, é claro, essa responsabilidade. Não podemos voltar atrás. Fazer teatro é uma paixão e um vício”.

Entre um ato e outro de todo este cenário, a preocupação em agradar acaba se tornando dramaturgia pouco interessante para muitos. É o caso de Saulo Sisnando que afirma ser fiel somente às suas propostas: “Eu acho que estou indo contra a maré do teatro local. Creio que faço um teatro que os ditos entendidos julgam de péssima qualidade. Mas, por outro lado, tenho a certeza de que muitas pessoas falam mal por puro preconceito. Já recebi boas criticas de pessoas bastante talentosas”. Haroldo França reforça o coro da falta de aceitação, porém não se abate: “Sinto que parte da velha guarda tem dificuldade em aceitar os diretores novos, principalmente os mais jovens. Mas acho compreensível. Afinal, o desconhecido costuma causar estranhamento”.
Mesmo sob as seculares máscaras do drama e da comédia, os novos personagens do teatro paraense usam a cara e a coragem para encenar seus sonhos, seus ideais, suas doces loucuras. Na platéia está um público cada vez mais necessitado de arte original, corajosa, desafiadora. Eis a questão... Ser ou não ser público para aplaudir de pé o empenho destes artistas? A resposta? Bem, a resposta só será conhecida quando se fecharem às cortinas do futuro.

sábado, 27 de setembro de 2008

DUELO VOLTA À CENA


TONY (a voz tomada pela emoção): Quando um poeta é esquecido... o mundo se torna menos mundo... Menos vale o ser, menos vale o entender, menos vale o respirar... Quando um poeta é esquecido, a sensibilidade esquece-se das horas. Atrasa-se em chegar nos sorrisos, apressa-se em chegar nas lágrimas... Tamanho é o intempo!... Quando um poeta é esquecido, a angústia se lembra de como acordam os sonhos só para fazê-los voltar a dormir... Meu Deus, quando um poeta é esquecido as palavras começam a querer se deitar... E assim vão desfalecendo... DELICADEZA, INTESIDADE, CRENÇA, DISCERNIMENTO, ÓDIO... AMOR... As palavras todas começam a fenecer... As pessoas começam a não saber mais o que dizer umas para as outras... Quando um poeta é esquecido, todos esquecem que em todos há um poeta.


(Texto e foto da segunda montagem de DUELO DO POETA COM SUA ALMA DE BELO, de Carlos Correia Santos. Direção: Dionelpho Júnior. Com Vaneza Oliveira e Luiz Carlos Girard. Produção: Márcio Mourão. Espetáculo destacado com Menção Honrosa no Concurso da Academia Paraense de Letras de 2005. Espetáculo vencedor do Edital Estadual de Fomento às Artes Cênicas 2008. Espetáculo selecionado no Edital de Pautas da Secult 2008. Obra incluída no Catálogo da Dramaturgia Brasileira, de Maria Hellena Khurner, iniciativa vencedora do Prêmio Shell 2007)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

E-MAIL DIRA PAES


Carlos querido,

tenho acompanhado mesmo que de longe
sua trajetória, agora brindada com esse
lindo prêmio, e seu talento é inegável.
Vou ler o Velas com certeza.

Parabénsss!!!!

Bjsssss,

Dira

sábado, 20 de setembro de 2008

VELAS NA TAPERA - PRÊMIO DALCÍDIO JURANDIR

Aqui, partilho com todos um trecho do meu primeiro romance: "Velas na Tapera". A obra acaba de vencer o importantíssimo prêmio Dalcídio Jurandir. Concurso de nível nacional, criado para homenagear o centenário de um dos mais importantes nomes da Literatura Amazônica. O livro será editado e amplamente divulgado. Eis as minhas "Velas"...

PARTE SEGUNDA

Trecho XXIII


O sol. Aceso. Vela sazonal no céu azul. A acender memórias e sensações. Foi como se o sol mais forte ficasse quando Rita serenou seus passos descalços em frente ao grandioso prédio da antiga serraria. A luz do dia clareou distâncias nos olhos da mãe viúva-órfã. Distâncias no tempo. Antes de prosseguir com o que fora ali fazer, correu um demorado apreciar pela fachada do lugar. O silêncio da ruína. Era possível enxergar silêncios no lento desfazer-se exposto pelo prédio. E seu lento apreciar foi deslizando pelos detalhes todos. A estrutura ampla e alta, dona de contornos geométricos. Inteira fabricada em Michigan e transportada peça por peça para ser montada naquelas paragens... Tudo transformado em mutismo... Tudo... Deixou o esquadrinhar fluir para a ainda imponente caixa d´água que ficava a alguns metros. Trouxe-o de volta para a construção a sua frente...

Respirou fundo.

Por fim, iniciou o resgate que decidira dar a si mesma. Num mover-se quase imaginário, entrou na abandoada serraria. Primeiro aquilo. Naturalmente aquilo: o vazio de um interior estagnado. Caminhou, caminhou. Passou pelos restos de maquinário. Deslizou a ponta dos dedos por equipamentos inertes, a um triz da ferrugem. Esquivou-se languidamente de sobras de vigas e restos de tábuas. Caminhou e caminhou pelo mudo presente de um rico passado...

O passado... Um longo migrar de ar pelas narinas.... O passado...

Era hora de trazer para o presente o passado...

Fechou os olhos lentamente.

E quando os reabriu...

A pleno pique funcionava a serraria do projeto Ford. Era preciso manter a produção de quarenta e cinco mil tábuas por mês. Era preciso. Talvez os homens todos que ali arrastavam horas e mais horas de trabalho sequer soubessem, mas suavam sua labuta na maior serraria da América Latina de então. A madeira gritando no corte preciso graças ao que parecia milagre: energia elétrica no meio da mata. Homens do mundo inteiro. Jornada intensa carregada nos ombros de homens do mundo inteiro. Entre eles, compenetrado, movimentos todos doados ao produzir... O texano Duncan Miller... As retinas de Rita cristalizaram-se... Era Duncan... Outra vez como sempre: inteiro perfeição para seus olhos... (...)

E-MAIL DE LAURO GÓES




Abaixo, e-mail enviado para mim pelo grande ator e diretor Lauro Góes sobre a premiação do meu romance “Velas na Tapera”:

Carlos,

Pela leitura do pequeno trecho do romance, assegurei-me do cabal merecimento do prêmio com que foi distinguido. Você não acha que estão faltando paraenses na atual Academia Brasileira de Letras? Orgulho-me do compatriota, e, hoje, posso expandir a alma com alegria, dizendo: orgulho-me por tê-lo como amigo!

Um grande abraço, Lauro Góes


SOBRE LAURO GÓES

Ator e diretor carioca. Começou a trabalhar como ator profissional em 1966, chamado por Gianni Ratto, para o seu primeiro papel, na peça “Rastro Atrás” ao lado de Leonardo Vilar, Iracema de Alencar, Rodolfo Arena, Vanda Lacerda, e do também jornalista Renato Machado. Em seguida, Lauro estudou Direito por dois anos e parou. Em 1971, interpretou Camões, no Teatro Municipal, por ocasião do Centenário da publicação dos Lusíadas, com direção de Paulo Afonso Grisoli. Em 1972, foi para a Europa, estudar teatro e cinema. Acabou optando pelo primeiro. Em Paris, faz o Cours Rene Simon e trabalhou em “As moscas” de Jean Paul Sartre, que assistiu a estréia e ficou impressionado com o seu desempenho. Posteriormente, foi o ator principal do dramatique “Ici, peteutre”, onde fez o papel de um português, que falava francês fluente.

Em Londres, foi locutor da BBC e na Itália, fez teatro de rua, na Piazza Navona, num espetáculo baseado em antropafogia, no verão de 75. Em 76, voltou ao Brasil e fez um teste para interpretar o Frei Virgilio em “Pecado Capital”. Foi aprovado pelo Daniel Filho e iniciou sua carreira no veículo, onde fez Casos Especiais, Casos Verdade, várias novelas “ O feijão e o sonho”, “A sombra dos laranjais”, “Gina”, “Nina”, “Coração de Estudante”, os seriados “ Chiquinha Gonzaga” na Globo e “A família Byte” na TVE. Também teve um programa com Lidia Brondi e gravou vários episódios do “Sítio do Picapau Amarelo”. Trabalhou ainda na TV Manchete e na Record.Em seu cartão de visitas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, está escrito assim: Prof. Dr. Antonio Lauro de O. Góes - Assessor para Eventos Especiais - Fórum de Ciência e Cultura, o que traduzindo, significa, Lauro Góes, um homem dedicado permanentemente a sabedoria e ao teatro. Fundador em 1980, na Faculdade de Letras, do 1º Grupo de Teatro Universitário. Bacharel em Letras, com mestrado em Comunicação e Doutorado, novamente, em Letras. Autor de teses sobre dramaturgia. A de mestrado, “Criação coletiva Tá na Rua/Amir Haddad”. A de doutorado, “A adaptação como fundamento de teatro”.

São vinte e três anos, trabalhando como professor em literatura dramática.Seus últimos trabalhos em TV foram o pai do personagem Danilo, do Murilio Benício em “Chocolate com Pimenta” e, em 2005, quando fez uma participação em "A Lua Me Disse". Em 2007, Lauro faz participação em "Paraíso Tropical", de Gilberto Braga e Ricardo Linhares.

2006 Bicho do Mato-Rede Record-Adamastor
2005 A lua me disse - Inácio
2004 Começar de Novo - Romualdo
2004 Chocolate com Pimenta - Leonardo
1999 Chiquinha Gonzaga - Viton
1996 O Campeão (Bandeirantes) - Zé Eduardo
1978 Gina - Zeca
1978 O pulo do gato - Ricardo
1977 Nina - Clemente
1977 À sombra dos laranjais - Cláudio Lemos
1976 O feijão e o sonho - Rubinho
1975 Pecado Capital - Virgílio Lisboa