sábado, 30 de agosto de 2008

DADO AOS DEDOS


Meus cinco dedos da mão direita
são tempo, cor, violino, dor,
fantasia.

Aponto o hoje, anel de verde,
toco o amanhã, dedilho lágrima,
sorriria.

Mas meus dedos da mão esquerda
são pedra, breu, fogo, eu
e o que ninguém seria.

Furo o chão, apago o não, nego o teu,
escrevo o meu e, com a unha,
risco poesia.


(Carlos Correia Santos. Do Livro Delicare)

A FALA NUA NAS BOCAS DE ADALGISA, MURILO E ISMAEL




ADALGISA (vestindo as calças, o paletó e pondo o chapéu do figurino de ISMAEL, falando num tom firme): O ser humano é uma criação de sua própria mente e da mente do outro. É, na soma final dos sentimentos, um ente organicamente formado pelas emoções encerradas em si mesmo e pelas emoções que provêm do coletivo. Um ser humano, portanto, é igual ao pedaço do seu eu somado a um terço do vizinho, à metade de qualquer conterrâneo e ao inteiro de quem desconhece!...

MURILO (colocando o vestido e os sapatos de ADALGISA, falando num tom forte): Desta forma, somos todos nós um pouco da forma de tudo e de todos. A minha vontade é, já foi ou será a vontade do meu amor. O meu desejo é irmão gêmeo do desejo de quem odeio. Parte do meu riso é igual ao choro de quem está ao meu lado. E eu choro todas as gargalhadas de quem passa longe de mim...

ISMAEL (colocando em si as calças, o paletó e os óculos de MURILO, falando num tom vigoroso): E não adianta querer encontrar em nosso peito algo que não more no peito de mais ninguém. A humanidade é, toda ela, interligada pelas mesmas artérias: a cobiça, o afeto, a violência, a ternura, a resignação, a vaidade!... Irriga nosso espírito um só sangue universal, o plasma da diversidade única!... Dormimos todos num mesmo leito... Sonhamos, acima de tudo, em nos transformar... no outro!...


(Trecho do texto teatral NU NERY, de Carlos Correia Santos. Obra vencedora do Prêmio IAP de Literatura, do Prêmio Funarte Petrobras de Fomento ao Teatro, da Caravana Funarte Petrobras de Circulação Nacional, do Edital Caixa Cultural. Espetáculo montado pelo Grupo de Teatro Palha, com direção e encenação de Paulo Santana. Escolhido para o I Festival Brasileiro de Teatro de Itajaí, Santa Catarina)

ATÉ MEUS PÉS JÁ SABEM QUE DÓI ANDAR PELA IMENSIDÃO




Até meus pés já sabem que dói andar pela imensidão.
No trajeto até um companheiro,
há mais de mil cacos de vazio.
Como sangro por caminhar...

Até meus pés já sabem que dói andar pela imensidão.
Tomo atalhos de eu para chegar a outrem
e lá ninguém, lá ninguém.
Como sangro por caminhar...

Até meus pés já sabem que dói andar pela imensidão.
Só no fim da estrada desse nunca,
meus sapatos de tranquilidade.
Só no fim...
Como sangro por caminhar.

Até meus pés já sabem...
E só por isso imenso piso,
por isso imenso passo,
por isso imenso vou.

Como amo o que sangro por caminhar...


(Carlos Correia Santos)

EUSEMMIM.COM.BR




Em qualquer canal de TV, madrugada.
Até o último beijo do último filme dos anos 50.
Em qualquer @ roubo d’alma teclada,
em que “site” minha noite afora já entra?

Quem está ai que aqui não está?
Muito prazer! Que prazer há de haver?
Meu nome, na verdade, não é de verdade.
Mas talvez o poema que sou não chegue a te comover.

Na TV, chuva. Lá fora, chove. Dentro de mim: gotas.
Na outra tela, a espera por outra tela que o irreal erre.
Mas o virtual é um virtuoso tornar passado o presente
e eu aqui só fico nesse “eusemmim.com.br”.


(Carlos Correia Santos. Do livro Poeticário, RKE, 2005)

O OLHAR DE HELDER BENTES PARA IN DIVISÍVEL


Imagine um livro de poemas que é todo poesia desde o título, uma gradação de raízes verbais (poet- de poetar; poetic- de poeticar) arrematadas por um sufixo (-io) cuja idéia encerra um espaço onde a poesia jaz enclausurada em cheiro de livro sempre novo, senhora de um tempo incontável e de um espaço sem pontos extremos e sem limites. Assim é o livro Poeticário, de Carlos Correia Santos, que será lançado hoje em Belém.
Como o autor não é um poeta qualquer, posto que quaisquer jamais seriam poetas, sei que a mídia já está fazendo muito barulho em torno deste evento e, para não ser repetitivo, quero comentar mais um poema de Poeticário. Sim. Mais um. Pois já publiquei, no artigo 'Alicerce virtual para poesia real', comentário sobre o poema 'Eusemmim.com.br' (p.157).

Hoje apresento-lhes o poema IN DIVISÍVEL (p.17), uma obra marcada pela peculiaridade lúdica de quem tem no sangue o dom inato de decompor palavras para produzir significados.

Tenho prazer:Por ti 'pra'E por mim 'zer'. Dividido entre ti e você, Univido amor. Ah, o mor entre o bem e o querer.
Desde o título do poema, o autor serve-se da forma 'in' – que como expressão inglesa, preposição latina, abreviatura, símbolo ou prefixo já é plurissignificativa – e faz um trocadilho com a palavra 'divisível' apenas sugerindo que o 'in' seja um prefixo de negação.

No corpo do poema, o indivisível divide-se, para configurar a poesia, e a primeira sílaba de 'prazer' vira preposição que conecta um ponto de partida, o eu lírico (e por mim 'zer'), a um ponto de chegada (por ti 'pra'), não necessariamente nesta mesma ordem, como convém a um poema de verdade.

O eu é dividendo cujos divisores são desdobramentos de um amor unividido, para utilizar o particípio do verbo 'unividar' (criado pelo poeta de acordo com os padrões de formação de palavras portuguesas).
O amor aparece como o maior, mas o adjetivo que o qualifica aparece em forma sincopada, que e é também a mesma forma da segunda sílaba de 'a-mor' e está entre o bem e o querer.

Se o leitor seguir as pegadas sugestivas do poeta, ele supõe o significado de 'unividar' e o preenche concretamente com suas próprias experiências de amar.

Há um divisível em todo ser:Um quebrar-se só sem só-frer, Um subtrair-se só para só-mar.

E o divisível que há em todo ser revela-se no quebrar-se (dividir-se). Quebrar-se vira substantivo que apenas tenta descrever o fenômeno da divisão que é sem solidão e não apenas com sofrimento. Subtrair-se também vira verbo cuja ação é exclusiva e seu objetivo é também sua antítese.

Há um 'in' divisível em todo ter. Tenho no que te há o que ver: tenho há-ver. Tenho em ti meu você, meu mor ar, meu morar

A última estrofe refere-se ao 'in' de indivisível agora como toda afirmação que vem implícita em toda negação. E o que outrora fora dividido agora se recompõe no objeto da visão do eu lírico, que é o que acontece a seu amor – o que justifica a divisão de haver em 'há-ver'. E a posse do eu é o objeto de seu amor, seu você, seu maior ar, seu morar.
Não é lindo?

Quem disse que poesia feita por paraense tem de ter aqueles apelos regionais?Os outros significados sugeridos no poema deixo a critério da interpretação de vocês, leitores.


Helder Bentes - Professor e Crítico Literário.

domingo, 24 de agosto de 2008

PREFÁCIO DE PAES LOUREIRO PARA POETICÁRIO


NÃO HÁ CHAVE PARA O MISTÉRIO...


(...) O livro Poeticário de Carlos Correia Santos é um livro de poesia. Poeticário, já no seu nome, estimula jogar-se ao gosto do poeta, com os algorítimos da palavra título. Poeticário. Poe. Ética. Rio. Poética. Poético. Icário! Logo em seguida, oferecendo como chave ao cofre simbólico de seu procedimento poético, numa epígrafe explicativa, diz sonhar o significado das palavras do dicionário. Quer dizer, não é na lógica da razão da língua que ele vai buscar o sentido das palavras da tribo dos seus poemas. É na imaginação. No sonho.

A poesia de Carlos Correia Santos, neste livro, usa as palavras ou a linguagem, como quem faz dobraduras de papel. Uma espécie de "origame" de palavras, dobrando as sílabas, vincando fonemas, fazendo brotar de palavras imprevistas palavras. Cada palavra como um cofre de palavras. Espelhos paralelos de significações e formas. Sabe contornar o risco daí decorrente, isto é, deixar que o prazer do jogo verbal se torne artifício. Mesmo que fossem artifícios de um artífice. O poeta sabe muito bem evitar esse risco. E também sabe que poesia se faz com palavras, é verdade, mas palavras carregadas de significação.

(...) Penso que a poesia é a encantaria da linguagem. O poeta é um pescador com o anzol do imaginário, sentado na várzea do devaneio. No rio da linguagem padrão ele mergulha a sua linha e vai buscar essas entidades submersas na língua, na cultura, na memória para torná-las a própria superfície sensível do rio-poesia-linguagem. No anzol pode vir uma imagem, um pedaço de palavra, um submarino sonho naufragado.

Em Poeticário há bons exemplos desses mergulhos na encantaria da linguagem. "Nada, nada que se compreenda" é um deles. Outro é "Blues". Aqui há desconcerto do mundo, da língua, do verso. O verbo concebido com pecado. Há uma espécie de neo-romantismo pós-moderno, o prazer da ironia, uma discreta picardia da instigação delicada.

Há, também, o gosto de jogar com a expressão, de surpreendê-la, de surpreender com ela. Não propriamente com trocadilhos. Talvez, pelo gosto do paradoxo (Desatina!, diz a rotina). Não é uma poesia que busque o vasto campo das significações da cultura ou da tradição técnica. Quer a brevidade, a transitoriedade das coisas, o instante eterno que passa (Tod'Efêmero). Flexiona o verbo de modo inusitado e provocador de novas flexões. Violenta a língua padrão para enveredá-la no bosque do desvio da norma, a fim de poetizá-la. Busca o contraste, as inversões – da norma, da língua ou da significação (Familiário). Domina o ritmo e joga com ilusórias dissonâncias, quando se pensa que vai cair no esperado. Muitas vezes sugere um poema hermético. Pura ilusão. O poema quando lido, relido, lido, se vai abrindo como as portas de um mistério (Ecos de egos).

Todo poeta é um vidente da infância. Não como quem faz o caminho do retorno. Mas, aquele que leva a infância, instalando-a onde demarca seu reino de utopias. Ou então, buscando-a sempre no futuro. Não a infância como estado. A infância como liberdade de ser a de se incorporar no mundo como linguagem livre. Como afetividade aurática. Essa afetividade em plenitude da infância que enlaça o poeta ao mundo e que faz o estranhamento cativante do leitor com relação a ele. O poeta: um ser alado e leve, como queria Platão. Quer dizer: um homem adulto pesado e terrenal com a infância o tornando leve e alado.

Carlos Correia Santos é poeta. Preserva a dignidade viva e dinâmica da língua. Celebra sua energia sem a ela submeter-se. Como um amante a ela se submete enquanto a submete. Sabe acariciá-la no enlace devoto, mas, também, sabe dobrá-la quando a paixão de criar requer. Semelhante ao domador de uma égua selvagem, domina a língua pela cauda, para, ao mesmo tempo, cavalgá-la. Como poeta, já demonstra sua originalidade e quer ocupar o seu lugar distinto. O merecido lugar dos criadores, na mente e no coração dos que o lêem.



João de Jesus Paes Loureiro (Poeta e Professor de Estética)

sábado, 23 de agosto de 2008

E-MAIL DE JOSÉ LOUZEIRO PARA CARLOS CORREIA SANTOS


Seu teatro prima pela criatividade e expressividade do texto. Sem nenhum exagero e muito menos bajulação eu o considero um dos maiores talentos da nova dramaturgia brasileira. Desculpe se nos correspondemos pouco. Sou mal de cartas e ruim de e-mails, o que não significa que menospreze seu talento. Muito sucesso e muita saúde pois você, estou certo, tem pela frente um largo caminho a percorrer.


José Louzeiro, célebre romancista brasileiro, autor de obras como “Lúcio Flávio: O Passageiro da Agonia” (21/08/2008)