quinta-feira, 11 de setembro de 2008

MANIFESTO PELA MORTALIDADE


Por favor, deixem-me morrer. Escritores de verdade morrem. Findam. Sabem que suas carnes terminam e se vão. Escritores de verdade deitam, dormem e viram lápide. Como qualquer outra criatura. Isso simplesmente pelo fato de que são humanos. Artistas reais são seres. E por isso sentem, sofrem, querem, criam, constroem, doem, fazem doer, incomodam e são incomodados. E por isso existem. E por isso morrem. Então, que se saiba: quero que o meu eu se esgote. Muito e quando tiver de ser. Pelo amor de Deus, deixem os poetas morrerem!

A razão desse manifesto incomum? O motivo desta súplica pela morte da minha matéria? Só um. O anseio de gritar: é fantasmagórico o título de imortalidade literária. Sim, sou réu confesso: já me candidatei a esse posto. E quase o fazia de novo nesses últimos tempos. Mas felizmente morreu em mim esse intento. Joguei coroas sobre sua tumba e aplaudi esse enterro.

Não quero bajular, não quero tomar chá, não quero mandar flores. Quero berrar para quebrar silêncios. Quero devorar a modernidade. Quero cortar meus pulsos com os espinhos da vida. Não quero patrono. Não quero fardão. Não quero discursos. Quero ser patrão da minha alma. Quero me vestir com absurdos ou ficar nu para me expor inteiro. Quero bater boca com quem me subestime ou me calar diante de quem eu não respeite. Porque tudo isso é a verdadeira Poesia. Porque Arte se faz com verdade. Mesmo que seja a Arte que melhor minta. E a verdade pede por existência. E toda existência morre. O mais é pedantismo puro.

O que não morre, porém, é a palavra. A palavra, sim, tem alma. A palavra, sim, é imortal. E só é realmente imortal o escritor que morre e se vai consolado pela certeza de que sua escrita sobrevive a qualquer túmulo. O contrário disso é se fazer zumbi. Envelhecer em mediocridades e se contentar com sonetos ditos para paredes surdas. Quero morrer. Mesmo que seja depois de ter comovido uma única pessoa com meu lirismo. Mesmo que seja depois de ter causado agonia em uma multidão com minhas letras. Quero morrer mesmo que seja no minuto seguinte que publicarem essa crônica. Mas morrer feliz porque ela terá sido lida. Pois escritores só servem para isso. Para dar inquietações a quem quer que seja. Escritores precisam revirar cadáveres.

Figuras distintas que nada causam, que nada comovem... Essas figuras nunca serão imortais. Por uma simples explicação: nunca realmente viveram para a eternidade. O eterno não é eleito em academias. Viva Benedicto, viva Waldemar, viva Bruno, viva Salomão e outros – bem poucos, diga-se – que, acima de tudo, receberam os votos do talento e independem das urnas da conveniência. Viva Tavernard, viva Faustino, viva Lima Barreto, viva Quintana. Todos liricamente falecidos. O eterno não se acomoda em cadeiras. O eterno está à mesa da vida para ser devorado por quem ama o fato de ser perecível. Por isso, por favor, deixem-me morrer. Esta é a paz que quero.


Carlos Correia Santos

Crônica publicada na revista Livre, nesta sexta, dia 12 de setembro de 2008.


terça-feira, 2 de setembro de 2008

RESULTADO CONCURSO DE POESIA CAL UFPA


A Diretoria de Cultura/ CAL/UFPA torna público o resultado da Comissão Julgadora do IV Concurso de Poesia (versão 2008). Tenho o prazer de estar nesta lista pontuada por colegas valorosos. São estes os selecionados:

ÁDAMO CASTILHO BRASIL
“Pedra Lascada”/ “Signos”/ “Transmutação”

ANA CAROLINE DO ESPÍRITO SANTO CHAVES
“Esto de Versos”/ “Iriante Liberdade”

ANDRÉ LUIZ VALADARES DE AQUINO
“A Glauco Matoso”/ “Meuverboévermelho”/ “Odorsodooco”

ANNA MARIA AVELINO AYRES
“Carro de Boi”

ANSELMO DE SOUSA GOMES
“A Chuva é Vampiro”/ “Estio”/ “Os Cadeados Trancam”

CARLOS CORREIA SANTOS
“Lunamorfose”

DANIEL DA ROCHA LEITE JÚNIOR
“Aquarela para um menino”/ Alfabeto de espelhos”

DANIELLE FONSECA DO NASCIMENTO
“A Invenção do Cais”/ “Cidade de Abreu”/“Horários de Práticas Poéticas”

JANICE NASCIMENTO FARIAS
“Outono”

JOSÉ ANTONIO DE SOUSA NETO
“Dia Morto”/ “Concepção”/ “Pomares”

JOSÉ FRANCISCO DE BRITO
“Vazio”

JOSETTE LASSANCE
“Deserto Cão”/ Fauna”/ “Tarde no Bolonha”

LUANA NOGUEIRA DE FARIAS MOURA
“Cão Dançando Parado”/ “Folhas”/ “Mãe”

NARJARA OLIVEIRA
“Frívola”/ “No Rito”

RAFAHEL JEAN PARINTINS LIMA
“Lá Vive um Desconhecido de Milanos”/ “30/11/2006”/ “Violador em Pé”

RODRIGO GUABIRABA BRITO
“Singelo”/ “Testamento Free-base”

TATIANA ALVES SOARES CALDAS
“Elegias e Epitáfios”/ “Tapeçaria”/

VITOR NINA DE LIMA
“Giraulua”/ “Verve”

Comissão Julgadora/ CAL/ UFPA

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

DIABO DELICADO




Quando um demônio beija um colibri,
todo meu ardor voa com penas de anjo.
Minha paz é um demônio beijando um colibri,
um delicado diabo tocando banjo.

Quando leio a partitura dos gritos dos meus demônios,
entendo todo esse enorme inferno de ser feliz.
A alegria toca violinos de fogo nos meus sonhos
e faz demônios beijar meus colibris.


(Carlos Correia Santos. Do livro Delicare)

O VÔO VÃO DA ETERNIDADE...


ANJO DA ETERNIDADE (olhando no rumo de um horizonte imaginário): É no sem fim que se guardam os sonhos, as idéias, a verdade e a loucura. É para além das nuvens do tempo que partem todas as fantasias da alma. É para além das vastidões do horizonte que se lança o olhar de quem almeja o desconhecido. É para o que há depois de todas as vagas que se dirigem as asas da ânsia por evolução...

(Repetindo a mesma manobra da CENA 01, os outros quatro anjos saem com a cama pelo lado direito do palco e rapidamente voltam à cena com a cama pelo lado esquerdo do cenário. Quem está dormindo no leito agora, trajando roupas de quarto, é o Pequeno Júlio. Deixando a cama na mesma marca em que estava antes, os quatro anjos se afastam do leito e sentam-se próximo à borda do canto direito do palco. Prosseguindo seu monólogo, o Anjo da Eternidade caminha até a cama e com extremo cuidado toma no colo o Pequeno Júlio, que permanece adormecido)

ANJO DA ETERNIDADE (sereno): Dorme no leito da eternidade, o lirismo de todo Ícaro. Repousa entre os lençóis do amanhã a beleza de quem nunca deixará de ser pássaro... Mas essa mesma beleza faz ficar amanhecida para sempre na terra a semente do inventar e do reinventar-se...

(Com o garoto no colo, o Anjo da Eternidade dirige-se para o fundo do palco e senta-se no trapézio de pano que lá se encontra. Enquanto continua sua fala, o trapézio começa a subir):

ANJO DA ETERNIDADE (um riso emocionado): E voa todo aquele que se dá às asas da ousadia. Voa todo aquele que se agarra às penas da coragem de ser humano... Porque o céu... Ah, o céu... O céu é a guarida dos encantados...

(Nessa deixa, os quatro anjos cantam a parte final da canção)

(Cena final do texto JÚLIO IRÁ VOAR, de Carlos Correia Santos. Obra vencedora do primeiro lugar no Prêmio Funarte de Dramaturgia 2004. Espetáculo montado pelo Grupo Palha, com direção e encenação de Paulo Santana)

sábado, 30 de agosto de 2008

DADO AOS DEDOS


Meus cinco dedos da mão direita
são tempo, cor, violino, dor,
fantasia.

Aponto o hoje, anel de verde,
toco o amanhã, dedilho lágrima,
sorriria.

Mas meus dedos da mão esquerda
são pedra, breu, fogo, eu
e o que ninguém seria.

Furo o chão, apago o não, nego o teu,
escrevo o meu e, com a unha,
risco poesia.


(Carlos Correia Santos. Do Livro Delicare)

A FALA NUA NAS BOCAS DE ADALGISA, MURILO E ISMAEL




ADALGISA (vestindo as calças, o paletó e pondo o chapéu do figurino de ISMAEL, falando num tom firme): O ser humano é uma criação de sua própria mente e da mente do outro. É, na soma final dos sentimentos, um ente organicamente formado pelas emoções encerradas em si mesmo e pelas emoções que provêm do coletivo. Um ser humano, portanto, é igual ao pedaço do seu eu somado a um terço do vizinho, à metade de qualquer conterrâneo e ao inteiro de quem desconhece!...

MURILO (colocando o vestido e os sapatos de ADALGISA, falando num tom forte): Desta forma, somos todos nós um pouco da forma de tudo e de todos. A minha vontade é, já foi ou será a vontade do meu amor. O meu desejo é irmão gêmeo do desejo de quem odeio. Parte do meu riso é igual ao choro de quem está ao meu lado. E eu choro todas as gargalhadas de quem passa longe de mim...

ISMAEL (colocando em si as calças, o paletó e os óculos de MURILO, falando num tom vigoroso): E não adianta querer encontrar em nosso peito algo que não more no peito de mais ninguém. A humanidade é, toda ela, interligada pelas mesmas artérias: a cobiça, o afeto, a violência, a ternura, a resignação, a vaidade!... Irriga nosso espírito um só sangue universal, o plasma da diversidade única!... Dormimos todos num mesmo leito... Sonhamos, acima de tudo, em nos transformar... no outro!...


(Trecho do texto teatral NU NERY, de Carlos Correia Santos. Obra vencedora do Prêmio IAP de Literatura, do Prêmio Funarte Petrobras de Fomento ao Teatro, da Caravana Funarte Petrobras de Circulação Nacional, do Edital Caixa Cultural. Espetáculo montado pelo Grupo de Teatro Palha, com direção e encenação de Paulo Santana. Escolhido para o I Festival Brasileiro de Teatro de Itajaí, Santa Catarina)

ATÉ MEUS PÉS JÁ SABEM QUE DÓI ANDAR PELA IMENSIDÃO




Até meus pés já sabem que dói andar pela imensidão.
No trajeto até um companheiro,
há mais de mil cacos de vazio.
Como sangro por caminhar...

Até meus pés já sabem que dói andar pela imensidão.
Tomo atalhos de eu para chegar a outrem
e lá ninguém, lá ninguém.
Como sangro por caminhar...

Até meus pés já sabem que dói andar pela imensidão.
Só no fim da estrada desse nunca,
meus sapatos de tranquilidade.
Só no fim...
Como sangro por caminhar.

Até meus pés já sabem...
E só por isso imenso piso,
por isso imenso passo,
por isso imenso vou.

Como amo o que sangro por caminhar...


(Carlos Correia Santos)