segunda-feira, 30 de novembro de 2009

LIVROS PREMIADOS NO MEC TERÃO TIRAGEM DE 300 MIL EXEMPLARES

Noticia publicada no Portal do MEC, na quinta-feira, 26 de novembro de 2009 - 16:53

O Ministério da Educação divulgou nesta quinta-feira, 26, a relação dos vencedores do 3º Concurso Literatura para Todos. Cada escritor selecionado receberá um prêmio de R$ 10 mil, em dinheiro, e as obras, que integrarão a coleção Literatura para Todos, serão publicadas com tiragem de 300 mil exemplares.

O público-alvo dos livros premiados são os chamados neoleitores, jovens com mais de 15 anos e adultos que participam do programa Brasil Alfabetizado em todo o país e nas escolas públicas com turmas de educação de jovens e adultos (EJA). A premiação será no dia 4 de dezembro, no encerramento da 6ª Conferência Internacional de Jovens e Adultos (Confitea), evento que acontece de 1º a 4, em Belém.

No gênero poesia foram premiados quatro autores: Maria Amélia de Amaral e Elói com a obra Poesia torta; Alexandre Jorge Marinho Ribeiro, com Poemas de pouco empenho; Adriano Bitarães Netto, com Poesia da indagação; e José Luís Tavares (de Cabo Verde, África), com À bolina ao redor do Natal.

Dois autores venceram no gênero prosa: Mayrant Gallo, com Moinhos, e Carlos Augusto de Almeida, com Tempo de chuva. No gênero tradição oral venceu Marco Aurélio Pinotti Catalão, com No cravo e na ferradura; na dramaturgia o ganhador foi Carlos Correia Santos, com Não conte com o número um no Reino de Numesmópolis; no gênero perfil biográfico venceu Alaor Ignácio dos Santos Júnior, com Cascatinha e Inhana: a história e os trinados dos sabiás do sertão. Também foi selecionada, com menção honrosa, a obra O papagaio de Van Gogh (prosa), de Antonio de Pádua Barreto Carvalho.

O concurso Literatura para Todos seleciona anualmente oito obras de escritores brasileiros e, desde 2008, escolhe um livro de escritor africano de língua portuguesa. Nas edições de 2008 e deste ano, o autor africano vencedor foi José Luís Tavares, de Cabo Verde. O concurso também destaca uma obra com menção honrosa.

As coleções serão enviadas para uma série de entidades e instituições, entre elas, as parceiras do programa Brasil Alfabetizado, escolas públicas que oferecem educação de jovens e adultos, núcleos de EJA das instituições de educação superior, unidades prisionais.

Em 2010, o Ministério da Educação oferecerá um curso de mediadores de leitura para professores que trabalham com jovens e adultos. As obras premiadas serão utilizadas por esses professores. A formação será feita por sete universidades públicas integrantes da Universidade Aberta do Brasil (UAB).

Ionice Lorenzoni

domingo, 29 de novembro de 2009

FUNARTE PREMIA "QUATRO VERSUS CADÁVER"


Criada por Saulo Sisnando, a peça “Quatro Versus Cadáver” será apresentada em São Luis, Macapá e ganhará nova temporada na capital paraense

Sucesso de público em 2009, o espetáculo “Quatro Versus Cadáver” acaba de ser contemplado com o Prêmio Myrian Muniz, da Funarte. A vitória garantirá uma nova temporada da montagem em Belém e apresentações em São Luís e Macapá. Criado pelo diretor, ator e escritor Saulo Sisnando, o projeto reúne num só espetáculo textos do próprio Saulo, de Rodrigo Barata, de Edyr Augusto Proença e de Carlos Correia Santos. Quatro dramaturgos reunidos em torno do humor. A mini-turnê contará com uma especial programação paralela. Na capital paraense e nas outras duas cidades por onde passará, a trupe realizará oficinas de formatação de projetos para editais culturais, oficina de capacitação de atores e palestra sobre as relações entre cinema, teatro e literatura.

Na caravana também será desenvolvido o programa “Diálogo em Cena”. Em cada praça visitada, o grupo de profissionais que participam do projeto fará eventos de bate papo com a classe teatral local. A idéia é discutir o fazer o teatral, estimular a troca de experiência, relatar vivências e tentar formular rumos para a manutenção do intercâmbio entre os cenários culturais.

sábado, 28 de novembro de 2009

ESTRADA, ÁGUA, LIVROS E CENAS...

Registros da viagem que levou minha mini-peça I.N. 01 - ISMAEL EM TRÊS TRAÇOS (montagem do Coletivo Parla Palco) para a XI Feira do Livro de Marabá, no sudeste do Pará. Estrada, água, livros e cenas...











































domingo, 22 de novembro de 2009

CARLOS CORREIA GANHA PRÊMIO BINACIONAL DO MEC


Obra de Carlos Correia Santos será distribuída em todo o país . Dramaturgo participou de disputa também aberta a obras dos países africanos de língua oficial portuguesa

O escritor paraense Carlos Correia Santos foi o grande vencedor da categoria dramaturgia do concurso binacional “Literatura Para Todos”, promovido pelo Governo Federal, através do Ministério da Educação. Aberto a autores de todo o Brasil e dos países africanos que adotam a língua portuguesa, o edital tinha como proposta destacar obras inéditas destinadas aos chamados neoleitores (crianças, jovens e adultos recém alfabetizados). Também foram premiadas obras nas categorias prosa, poesia, tradição oral e perfil biográfico. O texto com que Carlos Correia venceu a disputa (uma peça para o público infanto-juvenil) se chama “Não Conte com Um Número Um no Reino de Numesmópolis”. Além de receber o valor de R$ 10.000, o nortista terá seu trabalho transformado em livro que será distribuído a centros educacionais de todo o país.

A entrega do prêmio deverá acontecer na capital paraense, no início do mês de dezembro, durante a VI Conferência Internacional de Adultos (CONFINTEA), importante iniciativa de mobilização educacional com repercussão mundial. Há vários anos o evento não era realizado no Brasil. Este ano, a capital paraense será o palco para a ação. O fato do concurso ter entre seus premiados um autor paraense foi uma feliz coincidência.

O CERTAME

A realização do Concurso Literatura para Todos é uma das estratégias da Política de Leitura do Ministério da Educação, que procura democratizar o acesso à leitura, constituir um acervo bibliográfico literário específico para jovens, adultos e idosos recém alfabetizados e criar uma comunidade de leitores. Esse novo público é chamado de neoleitores.

O MEC publica e distribui as obras vencedoras às entidades parceiras do Programa Brasil Alfabetizado, às escolas públicas que oferecem a modalidade EJA, às universidades da Rede de Formação de Alfabetização de Jovens e Adultos, aos núcleos de EJA das instituições de ensino superior e às unidades prisionais.

Em 2009, em sua terceira edição, os candidatos concorreram nas categorias prosa (conto, novela ou crônica), poesia, texto de tradição oral (em prosa ou em verso), perfil biográfico e dramaturgia. Foram selecionadas duas obras das categorias: prosa, poesia e textos da tradição oral e apenas uma obra nas categorias perfil biográfico e dramaturgia. A disputa também esteve aberta para obras, de qualquer uma das modalidades do concurso, produzidas por autores naturais dos países africanos de língua oficial portuguesa: Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Os vencedores receberão prêmios no valor de R$ 10 mil.

Em 2008, 729 foram inscritas. Desse total, 129 obras foram desclassificadas por não atenderem às exigências do edital. Concorreram ao prêmio 608 obras inscritas , sendo 301 textos em prosa (contos, novelas, crônicas), 14 biografias, 30 textos de tradição oral, 246 poesias e 17 obras de países africanos.

O ENREDO

Uma fábula na qual os números viram personagens em um mundo impensável. Esse é o grande mote da obra com a qual Carlos Correia Santos venceu o III Concurso Literatura para Todos. Cansado de precisar tomar sempre a primeira iniciativa sobre todas as coisas, o Número Um, o grande soberano do reino dos algarismos (Numesmópolis), decide abandonar tudo. Quer ir embora, viver sozinho. Afinal, ele se basta. Os demais números, no entanto, ficam em polvorosa. O que será do mundo, o que será da vida sem o Número Um? Tudo nasce com ele, tudo parte dele. É impossível não contar com ele! O Zero, o Dois, o Três e o Quatro resolvem usar as operações numéricas para mostrar que subtrair certas emoções, somar forças, dividir belezas e multiplicar conquistas é algo fundamental para todo e qualquer... um.

PERFIL DO NEOLEITOR NO BRASIL

De acordo com a Mestre em Literatura Brasileira pela UFPR, Elisiani Vitória Tiepolo, o neoleitor é o jovem, adulto ou idoso que está iniciando sua caminhada de leitor. Para compreendê-lo melhor, é importante conhecer os dados brasileiros sobre a leitura e alfabetização entre os maiores de 15 anos. Segundo o INAF/2007 (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional) a situação do alfabetismo entre pessoas entre 15 e 64 anos de idade, que estejam ou não estudando, residentes em todas as regiões do país em zonas urbanas e rurais, abrange quatro estágios: o analfabetismo, o alfabetismo nível rudimentar, o alfabetismo nível básico e o alfabetismo nível pleno.

Analfabetismo corresponde à condição dos que não conseguem realizar tarefas simples que envolvem a leitura de palavras e frases ainda que uma parcela destes consiga ler números familiares (números de telefone, preços etc.). Nesse nível estão 7% da população pesquisada.

Alfabetismo nível rudimentar corresponde à capacidade de localizar uma informação explícita em textos curtos e familiares (com o um anúncio ou pequena carta), ler e escrever números usuais e realizar operações simples, com o manusear dinheiro para o pagamento de pequenas quantias ou fazer medidas de comprimento usando a fita métrica. 25% da população pesquisada estão nesse nível.

Pessoas classificadas no segmento alfabetismo nível básico podem ser consideradas funcionalmente alfabetizadas, pois já lêem e compreendem textos de média extensão, localizam informações mesmo que seja necessário realizar pequenas inferências, lêem números na casa dos milhões, resolvem problemas envolvendo uma seqüência simples de operações e têm noção de proporcionalidade. Mostram, no entanto, limitações quando as operações requeridas envolvem maior número de elementos, etapas ou relações. Corresponde a 40% da população pesquisada.

No segmento alfabetismo nível pleno estão 29% das pessoas. Suas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar elementos usuais da sociedade letrada: lêem textos mais longos, relacionando suas partes, comparam e interpretam informações, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses. Quanto à matemática, resolvem problemas que exigem maior planejamento e controle, envolvendo percentuais, proporções e cálculo de área, além de interpretar tabelas de dupla entrada mapas e gráficos.

Além da pouca experiência em ler textos escritos, geralmente os neoleitores vêm dos estratos populares, e, mesmo morando no mundo urbano, trazem consigo uma história bastante vinculada ao mundo rural. Além disso, sobrevivem em subempregos em que os baixos salários e a subserviência prevalecem. Cada vez mais, os idosos têm buscado alfabetizar-se. As mulheres são, em maior número, muitas vezes motivadas pela necessidade de ajudar os filhos nas tarefas escolares. O processo de alfabetização pelo qual passam (ou passaram, pois a maioria freqüentou em algum momento da vida um tempo de escola) ainda se baseia, muitas vezes, em atividades de memorização, o que os leva à idéia de que ler é uma atividade mecânica.

SOLO DE MARAJÓ

Primeiro vídeo release do espetáculo SOLO DE MARAJÓ, monólogo inspirado na obra de Dalcídio Jurandir. Com Cláudio Barros. Direção: Alberto Silva Neto. Dramaturgia: Carlos Correia Santos. Cenografia: Nando Lima. Assistência de Direção: Papi Nunes. Produção: Milton Boulhosa. Um monólogo sobre almas à margem... O ator ilhado por tantas vidas... Páginas afogadas por tantos fados...
video

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ENTREVISTA PUBLICADA NO PORTAL ORM


Carlos Correia Santos: vida dedicada a arte da palavra

O teatro e o cinema já conhecem muito bem os textos de Carlos Correia Santos pelas diversas obras que se tornaram sucesso, como 'Nu Nery', 'Júlio Irá Voar' e 'Uma Flor Para Linda Flora'. Recentemente lançado, o livro 'Velas na Tapera' é seu primeiro romance e já garantiu o Prêmio Dalcídio Jurandir 2008.

Poeta, contista, cronista, dramaturgo, roteirista e agora romancista, Carlos Correia é vencedor de prêmios importantes na autoria de 'O Baile dos Versos' (poemas), 'Poeticário' (poemas), 'Nu Nery' (teatro), 'Ópera Profano' (teatro) e 'Batista' (teatro).

'Velas na Tapera' é resultado de vários anos de empenho, pesquisa e dores, como o próprio autor descreve. 'Velas' é uma história sobre dramas humanos, sobre como o destino e a paisagem que nos cerca, muitas vezes, são indutores para os passos que damos', comenta o escritor. O prefácio é escrito por José Louzeiro, um dos mais importantes letristas do Brasil, autor de 40 livros e criador do gênero intitulado 'romance-reportagem'.

O cenário é Fordlândia, núcleo urbano erguido pela Companhia Ford na década de 20, em plena selva amazônica, para produção de látex destinado à fabricação de pneus que seriam utilizados pela poderosa empresa automobilística. No contexto está, Rita Flor, que ao perder sua filha de seis anos em incêndio na tapera, resolve construir uma capela no local por acreditar que a menina virou uma milagreira, mas para isso terá que se prostituir.

No Balaio Virtual dessa semana, Carlos Correia Santos conta sobre a criação de 'Velas na Tapera' e do Prêmio Dalcídio Jurandir. Confira!

Portal ORM - 'Velas na Tapera' venceu em 2008 o prêmio Dalcídio Jurandir. O que o prêmio representa diante de uma obra ainda por lançar?

Carlos Correia Santos - Em primeiro lugar, uma grande honra. O prêmio foi criado pela Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves para celebrar o centenário de nascimento daquele que é, definitivamente, um dos maiores nomes da literatura brasileira e a grande referência para o romance produzido na Amazônia. A categoria em que competi teve abrangência nacional e isso é outro dado que traz mais impacto ainda a conquista que obtive. Meu livro disputou preferência com ótimas obras vindas dos mais diversos cantos do país. Outro dado importante é o fato da vitória ter sido determinada por uma banca de examinadores da mais alta competência e respeitabilidade. Os concursos literários – os sérios, vale ressaltar – fazem, hoje, no Brasil e especialmente aqui na região Norte, o papel de crítica especializada. São o que chamamos de fortuna crítica. “Velas na Tapera” foi submetido à apreciação de professores Doutores em Literatura. Um aval formidável. É como um selo de qualidade ímpar. E, claro, há ainda um aspecto especialíssimo. É meu primeiro romance. Estrear num gênero literário dificílimo como a narrativa longa cercado de todas essas qualificações é, sem dúvida, um presente imenso para minha carreira.

Portal ORM - Ter como cenário a selva amazônica no século 20, especificamente no núcleo urbano construído pela empresa automobilística Ford é no mínimo interessante. O que mais podemos encontrar nesse romance?

Carlos Correia Santos - Dramas humanos. 'Velas...' é uma história sobre dramas humanos, sobre fados, sobre como o destino e a paisagem que nos cerca, muitas vezes, são indutores para os passos que damos. A trama gira em torno de personagens fatalizadas. Por suas próprias escolhas de vida e pelas escolhas que a vida faz. Tenho paixão imensa por mergulhar nos abismos humanos, nas dores mais íntimas. Como diria a poeta Adalgisa Nery, amo as angústias que se guarda em segredo. No livro, todas as personagens são como pedaços do fracasso do projeto Ford. São seres-fantasmas que se arrastam pelo ermo da mata. São vidas paradas, como folhas de árvores que o vento não balança mais. Simplesmente porque o vento parece ter se esquecido de soprar ali, naquela lonjura. Essa, aliás, é a realidade que vive o interiorano da Amazônia até hoje. São vidas como lágrimas de látex congeladas no meio do tronco das seringueiras. Estagnadas. Por outro lado, também me interessa tocar nessa ferida histórica que é Fordlândia. Esse foi um dos mais megalômanos e surreais projetos que já ocuparam as nossas matas. A selva foi rasgada, desvirginada para supostamente trazer o progresso. A vida daqueles ribeirinhos foi virada de ponta cabeça. Eles entraram em contato com tecnologias e sonhos que jamais pensavam existir. E depois foram simplesmente abandonados. A chaga cheia de sotaques e referências gringas ficou lá, exposta em meio ao verde. Dá arrepios visitar Fordlândia. Ver as casas com arquitetura norte-americana. Ainda há por lá hidrantes da época, abraçados às folhagens. Parece um cenário de filme. Uma cidade rigorosamente americana definhando em meio à mata. Já se pensou num projeto de transformar a localidade num museu a céu aberto, o que seria muito válido. Mas nada se fez. Um capítulo incrível da nossa História está ruindo dia a dia, às margens do Tapajós. Tomara que o livro traga alguma luz para esse legado.

Portal ORM - Como foi o processo de criação de 'Velas na Tapera'?

Carlos Correia Santos - Foi um processo árduo, extenso e, justamente por tudo isso, apaixonante. Primeiro estruturei o drama sobre o qual eu queria falar: a história de uma jovem mãe que perde tudo, perde a filha, cai na miséria material, moral e emocional e escapa de um estranho incêndio em sua tapera, uma experiência mística que ela acredita ser fruto de um milagre da filha. Essa mulher decide construir uma capela para sua pequena milagreira, mas não tem dinheiro, nem esteio algum. Assim, acaba se tornando prostituta para conseguir a verba com qual erguerá a capela. Eu queria falar sobre essa dicotomia. Fascinam-me os diálogos entre o profano e o religioso. Estabelecido esse enredo, determinados os personagens que giram em torno dele, eu tomei a decisão de ambientar o conflito no cenário de Fordlândia. Então, parti para outra coisa que amo: a pesquisa. Foram vários anos pesquisando Fordlândia. Eu tive que entender com rigor todo o processo histórico e econômico que cerca o episódio. Tive que programar visitas a localidade – algo, aliás, complicadíssimo de se fazer. Depois cruzei as duas frentes. Pus os personagens que construí na minha imaginação para viver nesse cenário que de fato existe. Aí, é preciso ter todo cuidado do mundo para não se cometer erros, para não se fugir da coerência histórica, para não se abrir mão da chamada verossimilhança. O leitor tem que mergulhar na leitura e acreditar que aquelas pessoas realmente transitaram por aquele cenário. “Velas na Tapera” tem mais de trinta personagens – entre principais e secundários. Conduzir todas essas criaturas é uma missão louca e cansativa. Mas o prêmio foi uma coroação e um aval para todo esse empenho que levou coisa de quatro anos para ser concluído.

Portal ORM - José Louzeiro, autor do prefácio do livro, comenta que sua obra 'prima pela criatividade e pela singularidade na maneira de expressar-se'. O que 'Vela na Tapera' traz dessa originalidade que o romancista se refere?

Carlos Correia Santos - Como operário da palavra, tenho esse compromisso de trabalhar a linguagem como quem esculpe um mármore finíssimo. Não basta contar uma história instigante, cercada por um contexto histórico especial. Para mim, é preciso fazer tudo isso com esmero na técnica da escrita. Então, busco arduamente as possibilidades poéticas do escrever. O primeiro gênero que exercitei foi o poema. Isso é um condão que me acompanha em todos os outros exercícios de escrita. O Louzeiro – o grande mestre Louzeiro – se refere a isso. E o simples fato dele perceber e exaltar essa minha dedicação é um prêmio dentro do prêmio. O leitor, portanto, vai encontrar uma história cuja escrita tenta vivamente fugir do lugar comum. Uso várias técnicas para tornar intenso o enlace do leitor com a trama.

Portal ORM - Como surgiu a assinatura de José Louzeiro no prefácio do livro?

Carlos Correia Santos - Tive a honra de conhecer o Louzeiro há uns dois ou três anos, no Rio de Janeiro, onde ele vive. Louzeiro é uma referencia para o romance e para a dramaturgia brasileira. Autor de clássicos como Pixote e Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia. Autor de minisséries bem sucedidas, exibidas na Globo, inclusive. Celebrado por mitos como Marília Pêra. Fomos apresentados por um amigo em comum, o ator Gabriel Titan (aliás, meu obrigado ao Gabriel por esse presente de vida). Foi daqueles encontros tensos e ansiosos entre pupilos e grandes mestres. Lembro que eu subia o elevador do prédio dele e mantinha na mente um artigo em que o Chico Buarque fala sobre como foi seu primeiro encontro com Clarice Lispector. Eu me sentia como o Chico, naquele instante. Levei para o Louzeiro um exemplar de Nu Nery, texto teatral que gira em torno da vida de Ismael Nery, Adalgisa Nery e Murilo Mendes. Quando entreguei o livro a ele e falei do que se tratava, ouvi-o dizer: 'Fui amigo de Adalgisa'. Imediatamente, quis tirar o livro das mãos dele e sair correndo (risos). Era muita responsabilidade. Muita. Bem, ele leu a obra e me elogiou bastante. Nasceu ali uma relação de respeito e bem-querer especialíssima para mim. Naquela nossa conversa, ele logo mencionou Dalcídio. Disse que também tinha sido amigo próximo do nosso querido autor. Quando recebi a notícia da vitória no Prêmio, imediatamente me ocorreu: vou perguntar se o Louzeiro não quer escrever o prefácio. Ele não só aceitou de pronto como me brindou com um lindíssimo, profundo e isento texto de apresentação. Um orgulho sem fim para mim.

Portal ORM - A poeta e contista Olga Savary descreve sua dedicação pela arte e cultura no geral. Você participa de algum projeto de incentivo à cultura?

Carlos Correia Santos - Olga Savary é outro belo presente que a vida em deu. Prima de Drummond, ela é um mito das nossas letras nacionais. Bem, já participei de inúmeros e lindos projetos de fomento à leitura. Acho que ser escritor hoje, nesse país, é um convite coercitivo para se assumir um papel de articulação social. Não se pode falar em escrever, no Brasil, sem antes cuidar do convite a ler. Todos sabem os dramas que vivemos nesse segmento. Os índices de não alfabetização, a questão do não alfabetizado funcional, as distâncias que o jovem vive da leitura. Tudo isso traz ao artista a obrigação de se pensar como um ser com sérias responsabilidades coletivas. Já participei de programas voluntários de alfabetização. Criei e coordenei projetos de incentivo à leitura, como o 'Café com Verso Prosa', que foi muito bem sucedido. Fui o primeiro coordenador do programa de ações preparatórias para a Feira Pan-Amazônica do Livro, que realizava ações em escolas públicas e cidades do interior. Eu amo esse trabalho. Tenho-o como uma missão de vida.

Portal ORM - Diante das várias vertentes que sua literatura alcança, que semelhanças e divergência existem entre elas?

Carlos Correia Santos - A principal semelhança que costura meus exercícios de escrita de contos, poemas, crônicas, peças teatrais, roteiros de cinema e romances é, como eu mencionei acima, a relação com o poético. Em todos esses exercícios lido com a palavra como ferramenta poética. Tento fazer poesia no conto, na crônica, no teatro, no romance e assim por diante. Todos esses exercícios são também, como igualmente já disse, tentativas de mergulhar no profundo da alma humana. Tenho horror ao raso. Incomoda-me muito ver que hoje em dia as relações humanas parecem querer fugir da profundidade. Remo contra essa maré. As divergências?... Vou deixar essa resposta para os leitores. Quero que eles me leiam e me contem sobre isso...

Portal ORM - Seus textos teatrais ganharam grande repercussão na dramaturgia paraense como 'Júlio Irá Voar' e 'Nu Nery'. Que resultados você espera de 'Vela na Tapera'?

Carlos Correia Santos - Escrevo, acima de tudo, para me comunicar. Quero propor sensações, sugerir reflexões, abrir portas para descobertas. O resultado de tudo isso – positivo ou negativo – me alimenta. Quero que as pessoas se emocionem, se incomodem, se misturem à saga das personagens. Quero que pensem sobre Fordlândia, que conheçam um pouco da nossa História (o paraense precisa saber mais sobre si mesmo). O artista quer comover. Mover com. Quero me mover com os leitores. Quero que os leitores se movam com minha história. Que saiam de um ponto emocional e cheguem a outros. Assim, também transitarei por várias emoções. A relação entre autor e leitor é de troca. Ainda que não direta. Intento que 'Velas na Tapera' possa se transformar num vetor para todos esses pontos.

Portal ORM - Há possibilidade deste romance parar nos palcos teatrais?

Carlos Correia Santos - Sim, sempre há. Espero que aconteça. O ator e diretor Cláudio Barros tem um projeto de levar minha literatura para a cena, transformar em um monólogo. Não sei se ele optará por trabalhar com o 'Velas...' ou com outro texto meu. Também penso na possibilidade de que o livro chegue a outros suportes como o audiovisual. As pessoas que já leram o trabalho – quase todas – falam que a narrativa namora muito com o cinema. Enfim, espero que o romance chegue, antes de mais nada, ao maior número possível de leitores, que estabeleça comunicações e conexões. Quero agora que o livro acenda lumes nos corações de quem nele mergulhar. Todo e qualquer capítulo que o futuro trouxer será certamente muito bem vindo.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

NOVO E-MAIL DE JOSÉ LOUZEIRO


Caro amigo Carlos

Que seu lançamento seja um sucesso! Você merece. O seu primeiro romance tem a força e o conteúdo de uma obra que muito orgulharia, estou certo, o próprio Dalcídio Jurandir, um dos romancistas da minha admiração, e pessoa da qual foi muito amigo.

Abraços,

Louzeiro.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

VELAS NA TAPERA - SESSÃO DE AUTÓGRAFOS


Caros amigos,

É com muita honra e alegria que convido vocês para o lançamento do meu primeiro romance, VELAS NA TAPERA, obra vencedora do Prêmio Dalcídio Jurandir 2008. A sessão de autógrafos acontece nesta quinta, dia 19, a partir das 19h, no hall Ismael Nery, do Centur. Na oportunidade, serão também lançadas as obras vencedoras do prêmio nas categorias conto, crônica e poemas. O evento também marcará a divulgação do edital do Prêmio Dalcídio Jurandir 2009/2010.

Resultado de vários anos de empenho, pesquisa e dores, VELAS NA TAPERA tem como pano de fundo a colossal história de Fordlândia, núcleo urbano erguido pela Cia Ford nos anos 20, em plena selva amazônica, para produção de látex destinado à fabricação de pneus que seriam utilizados pela poderosa empresa automobilística. O projeto foi abandonado pelos gringos depois que a plantação de seringueiras foi atacada por uma praga. É pelo cenário da abandonada cidade americana, em meio ao ermo da mata, que transitam os personagens da obra. Em especial, Rita Flor. Rita perde sua filha de seis anos. Após um misterioso incêndio em sua tapera, ela acredita que sua menina virou uma milagreira e decide construir uma capela em sua homenagem. Rita não tem dinheiro para cumprir seu intento. O único caminho que lhe resta é prostituir-se. O sagrado e o profano deitados na mesma cama? Em meio ao vazio e ao desencanto que transformam Forlândia numa vila fantasmagórica, Rita vende seu corpo para santificar a filha.

VELAS NA TAPERA tem prefácio assinado pelo grande romancista José Louzeiro (autor de clássicos nacionais, como Pixote e Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia) e orelha assinada por Olga Savary (uma das mais importantes poetas brasileiras, considerada a introdutora do hai-kai nas letras nacionais). A seguir, trechos destes textos de apresentação e um pequeno extrato do romance.

Carlos Correia Santos


PERSONAGEM EMBLEMÁTICA

José Louzeiro*


“(...) Em boa hora, o nome do injustiçado Dalcídio vira prêmio literário em Belém, Pará, e o vencedor é o talentoso Carlos Correia Santos – “Velas na Tapera” – que prima pela criatividade, e eu até diria, pela singularidade na maneira de expressar-se.

Isso faz com que este “Velas na Tapera” seja uma obra cativante e originalíssima. O autor brinca com as frases sincopadas e a elas dá espírito novo, através de sugestivas e oportunas expressões metafóricas. A par desses recursos, de certa maneira cultivados por Guimarães Rosa, há que se destacar a preocupação do autor com a questão social, coisa essa imanente em todas as obras de Dalcídio.

A personagem trabalhada, dramaticamente por Carlos Correia é Rita Flor que, com suas vestes pretas, transforma-se numa espécie de estandarte vivo do sofrimento e da desesperança; da mulher diante de seus problemas pessoais, mas funcionando como figura emblemática neste livro que é a narrativa, também, do desastre de uma grande aventura industrial – a Fordlândia (Companhia Henry Ford Motores e Cia.) – que se instala em plena selva amazônica, mas pouco depois sobrevém a desilusão: o projeto naufraga no mar de folhas de todos os verdes, os prédios tornam-se taperas, as máquinas são esquecidas no matagal, como a pedir socorro pelo abandono a que foram entregues.

Mas ao autor, experiente teatrólogo, não basta contar a história do naufrágio do ambicioso projeto industrial numa região da mais absoluta carência; ele se esmera na técnica do dizer, do inventar, literariamente, coisa essa que o coloca no plano mais alto que um escritor poderia aspirar. Claro está que neste “Velas na Tapera” há muitos e bem traçados personagens, mas a figura que transcende é a de Rita Flor, forte e decidida como certas personagens da obra de Bertolt Brecht.

O enterro que Rita faz da filha equivale, nas entrelinhas, ao verdadeiro e definitivo funeral (ou pá de cal?...) do projeto norte-americano que se tornou esperança de vida para uma comunidade inteira, na floresta que guarda tanto viço e riquezas a serem descobertas.

Neste “Velas na Tapera”, Rita me faz lembrar, de certa forma, “A Alma Boa de Setsuan” (Brecht), pois ela é, na verdade, uma “parábola teatral,” ao mesmo tempo em que pode ser o espírito da mata, da dor materializada no pólen das flores, da decadência, das malárias e pesadelos, dos que sonharam e acordaram perdedores, tremendo no frio da desesperança.

Com este primeiro romance, se Carlos Correia já era considerado versátil teatrólogo, agora estréia na condição de ficcionista que prima pelas inovações e capacidade narrativa. Depois de sepultar a filha Saninha, Rita “se deitaria para sempre sobre a solidão”, pois ela passa a ser a personificação do que, popularmente, chamamos de “alma penada”, sujeita a chuvas e trovoadas.

O autor traça de tal forma o desenho desta personagem que sua projeção estende-se sobre a narrativa, torna-se absoluta e por que não dizer, chocante, surpreendente, pois é clara a intenção do autor em revolucionar as velhas formas “do dizer e do sentir” no contar de uma história.

“Velas na Tapera” é o que se pode chamar de realismo mágico a envolver a pequena comunidade marcada pela ausência de caminhos. Apenas Rita trilha as picadas da ausência, na louca tentativa de resgatar Saninha, materialização da saudade, do que se foi, não é mais. Menos para Rita. Curioso: essa metáfora, criada com maestria pelo ficcionista, envolve todos os habitantes das taperas, inconscientes da realidade que é uma espécie de rio sem começo e sem fim.

Somente Rita Flor, com as pegadas que deixa pelos caminhos fundos, pulsa como sendo a dor e a oculta paixão de certos homens, que sabem não serem correspondidos, pois o coração de Rita foi sepultado com o corpo de Saninha.

No desvario dela própria e no dos outros é que Rita encontra forças para manter-se viva no seu “mudo prantear”. Mas na visão estreita dos vizinhos ela é apenas a desmemoriada, que tudo perdeu – o marido, a casa incendiada – e, agora, vive das luzes que recebe da filha sepultada, mas que, para ela, mantém-se “vela acesa” ou sonho que não se deixa mesclar pelas cores soturnas do seu desafiador existir.

No mundo especial em que Rita transita, além das folhas verdes da floresta, há velas acesas a iluminar sua passagem. Pena que ela já tivesse “um ver que não via nada”, nem seus ouvidos registravam os “sussurros do mato” e muito menos os “cochichos de reentrâncias”.

As dores transformaram Rita Flor em assombração no inconsciente dos humilhados e ofendidos. Com este livro, Carlos Correia demonstra ser um grande conhecedor do poder das metáforas e de como utilizá-las com sutileza e sabedoria.

* Um dos mais importantes nomes das letras nacionais, José Louzeiro é autor de 40 livros e criador, no Brasil, do gênero intitulado romance-reportagem. Atuou em célebres veículos de comunicação, como “Última Hora”, “Correio da Manhã” e Revista Manchete. No cinema já assinou, como roteirista, dez longas-metragens, dos quais pelo menos três se tornaram populares: “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”, “Pixote” e “O Homem da Capa Preta”. Lançou pela Editora Francisco Alves o estudo biográfico intitulado O Anjo da Fidelidade, sobre Gregório Fortunato, o “anjo negro” de Getúlio Vargas. Em 2001, pela Editora do Brasil: "Isto não deu no jornal" (memórias de sua passagem por cinco jornais cariocas). E em 2002, “Ana Nery, a brasileira que venceu a guerra” (Editora Mondrian): biografia da heroína baiana, patrona dos enfermeiros brasileiros. O trabalho foi adaptado para a televisão, tendo Marília Pêra como protagonista. Ainda na TV, foi o autor de novelas como “Corpo Santo”.

A VELA ACESA POR SAVARY

Olga Savary*


Da complexidade do ser, da própria solidão e solidariedade humana, da sua simplicidade e estranheza, são realizados os textos de Carlos Correia Santos, seja na poesia, nos contos, no teatro ou no romance. Sua dedicação à cultura e à Arte faz deste autor paraense, deste grande brasileiro, um candidato constante às premiações importantes nas áreas citadas: poesia, ficção, peças teatrais.

Assisti com orgulho a uma premiação obtida por ele no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, em 2006. Carlos Correia Santos destacou-se entre dezenas e dezenas de concorrentes. Seu talento impulsionou-o a sobrepujar os demais candidatos. Uma platéia seleta e atenta assistia a apresentação do trabalho de Correia e tinha o direito de votar no melhor participante.

A literatura e a arte foram os meios de expressão eleitos por Carlos Correia Santos, que bem poderia pertencer à Academia Paraense de Letras. Seria uma honra para a APL tê-lo junto aos Acadêmicos, que só teriam a ganhar.

Além de seus méritos pessoais, no trabalho em seus livros, em tudo o que faz, Carlos Correia Santos é um guerreiro, um lutador pela cultura geral e pela cultura paraense em particular, sem falar na sua esplêndida atitude como pessoa, em sua admirável postura diante da vida e dos outros.

Pela extrema elegância e gentileza, pela classe e nobreza com que se conduz em tudo, Carlos Correia Santos é um príncipe. Orgulho-me de ter o privilégio de ser sua fraterna amiga.

* Poeta, contista, tradutora e organizadora de antologias. Artista nacionalmente aclamada, é uma das introdutoras do hai-kai no Brasil.

sábado, 14 de novembro de 2009

CLÁUDIO BARROS VOLTA À CENA COM MONÓLOGO INSPIRADO EM DALCÍDIO JURANDIR




Projeto tem em sua ficha técnica Alberto Silva Neto, Carlos Correia Santos, Patrícia Gondim, Nando Lima, Fátima Nunes e Milton Boulhosa

Um mergulho investigativo na obra de um dos maiores mestres da literatura produzida na Amazônia. Este é mote do monólogo que trará de volta aos palcos o ator e diretor Cláudio Barros. Livremente inspirado no romance “Marajó”, de Dalcídio Jurandir, o espetáculo, ainda sem título definitivo, será apresentado dentro da programação paralela da XIII Feira Pan-Amazônica do Livro, na sala Gil Vicente, nos dias 13 (às 14h e às 16h), 14 (às 16h e às 18h) e 15 (16h e 18h). O projeto tem o patrocínio do Hangar Centro de Convenções da Amazônia, Secult e Governo do Estado do Pará. O apoio cultural é da Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves.

O público da Feira do Livro poderá ver uma versão inicial das pesquisas que a equipe do trabalho vem exercitando há quase três meses. A estreia oficial do espetáculo deverá acontecer em dezembro. A produção conta com iluminação de Patrícia Gondim, cenografia de Nando Lima, assistência de direção de Fátima Nunes (Papi), produção de Milton Boulhosa, dramaturgia de Carlos Correia Santos e direção de Alberto Silva Neto.