terça-feira, 8 de novembro de 2011

DIRA PAES ESCREVE SOBRE OBRA DE CARLOS CORREIA SANTOS



Queridos amigos,

Como eu já havia divulgado aqui, a querida Dira Paes me deu a honra de aceitar escrever o prefácio para o meu livro TRINOS TITÃS, que será publicado pela editora Giostri, de São Paulo. TRINOS TITÃS reúne os meus quatro textos teatrais resultantes da extensa pesquisa que, durante anos, fiz sobre as figuras de Ismael Nery, Adalgisa Nery e Murilo Mendes. São quatro espetáculos teatrais independentes, mas interligados. Obras que já me renderam muitas alegrias. Já recebi vários prêmios regionais e nacionais com essas dramaturgias. TRINOS TITÃS será lançado dentro da série DRAMATURGIA BRASILEIRA, em que dramaturgos são apresentados ao grande público nacional sob as bênçãos de relevantes nomes da arte cênica. Ganho agora mais um prêmio com esse trabalho. Quem me dá essa benção, portanto, é essa pessoa iluminada e que tanto orgulho traz para nós os nortistas. Com vocês, então, a joia de texto que a tão querida Dira compôs sobre meus escritos...

Carlos Correia Santos

O PREFÁCIO

A PRECIOSA TINTA DE UMA MUSA DAS CENAS

O que inspira um poeta?

Qual a sua fonte primeira?

Um mergulho na própria existência?

Trino Titãs convoca Carlos Correia Santos à carpintaria de dramatizar a paixão e a poesia das biografias dessa trinca de artistas que marcaram a História com a sua arte e seu poético, intenso e excitante caso de amor.

O paraense Ismael Nery, a carioca Adalgisa Nery e o mineiro Murilo Mendes são personagens reais e irresistíveis para quem busca uma prática de montagem teatral que penetre profundamente na questão do amor a três. As angústias, os ideais, seus afetos, vão além do que o comum dos mortais vive. São deuses de carne e osso e genialidade.

Cabe dizer que poderíamos reconhecê-los na sociedade contemporânea, pois eram pessoas a frente de seu tempo. Talvez aí morasse a fragilidade destes personagens, que não cabiam dentro de si e de sua época. O autor revolve a desconstrução da estrutura do humano de cada personagem, revelando o convívio angustiante e silencioso com as suas dores e amores.

Em "Nu Nery", Ismael, senhor de seu tempo e da sua inquietude artística, instiga a uma interpretação de um personagem vigoroso. Mesmo em seus últimos suspiros, esbraveja contra os céus: " Meu Deus, para que pusestes tantas almas em um só corpo?... Dai-me, como vós tendes, o poder de criar corpos para as minhas almas... Ou levai-me deste mundo que já estou exausto...", dada a multiplicidade de sua personalidade e a dificuldade de reconhecer-se entre tantas facetas. Ao contrário de sua magnífica obra e de sua impecável formação intelectual.

A estrutura cênica proposta sabiamente pelo autor, na troca de figurinos dos atores em cena, faz com que cada personagem experiencie o jogo cênico da também troca de interpretações. Como se cada ator pudesse se vestir do objeto e sujeito de seus estímulos dramáticos. Desafiando os atores a se apropriarem de todos os personagens com a mesma entrega.

Em "Alma Imaginária", Adalgisa contracena consigo mesma. Ela selou o seu destino. Condenada a conviver com as suas lembranças até a sua maturidade. Isolou-se para que pudesse vivenciá-las sem dispersão: "O que fiz?... Fiz daquela dor meu poema de mortalha... Envolvi com tamanha morte o meu corpo de fêmea eterno luto... E segui..." Sua exuberância física e intelectual eram tão imponentes que não a deixavam passar despercebida. Marcada pela perda de muitos filhos, ela traduz a oca sensação de ser uma mulher maculada pela volúpia e suas perdas irreparáveis.

No monólogo "Uno Diverso", Murilo Mendes se revela: "...Às vezes, penso que conheci Ismael e Adalgisa mesmo antes de me conhecer..." O mineiro é a memória e a consciência de quem se apaixonou por um amor que já existia. E foi fiel a ele. Deixando o legado que permitiu esta pesquisa.

Em "Ismael em três traços", Carlos aproveita para exercitar a alta qualidade dos diálogos entre os vários "Ismaéis", permitindo a falta de linearidade do pensamento. O resultado é um jogo dinâmico do universo dos nossos musos modernistas.

A obra de Carlos Correia Santos ousa para além do exímio jogo cênico proposto aos atores e direção. Sem dúvida, proporciona a possibilidade de grandes voos de interpretação e montagem, dada a riqueza e singularidade em que se deram os fatos e o texto teatral em si.

É impossível desassociar essa tríade como o nosso dramaturgo nos prova. Sua inspirada busca em desvendar cada ponta desse irresistível triângulo de gênios resulta em textos irretocáveis na sua plenitude de prosa e verso. Percebe-se que o nosso premiado autor foi incansável na pesquisa que transcende o papel e que só se enriquece nas entrelinhas. Poeta também, desatou cada nó dessa trama, para depois enlaçar-nos nas redes de uma primazia teatral só encontrada nos textos de grandes dramaturgos.

DIRA PAES
Atriz
Rio de Janeiro, 7 de novembro de 2011

2 comentários:

Ricardo de Oliveira disse...

Parabéns Carlos! É uma honra muito grande ter um prefácio escrito por uma das mais talentosas atrizes brasileiras da atualidade e que por acaso é nossa conterrânea.

Você merece!

NADA SANTOS... TUDO ALMA... disse...

Super obrigado, caro Ricardo. Imenso e muito fraterno abraço!