terça-feira, 14 de outubro de 2008

INDEPENDÊNCIA OU ARTE


JORNAL O LIBERAL
CADERNO MAGAZINE
Edição de 13/10/2008

Artistas estão cada vez
mais livres das amarras
de gravadoras, editoras
e divulgadores. Quem
manda é a platéia!

CARLOS CORREIA SANTOS
Da Editoria

Olhe para o horizonte do cenário cultural atual. Olhe com calma. Você consegue enxergar? Vê as bandeirinhas sendo agitadas? Pois bem, às margens nunca plácidas da criatividade, um grito ecoa mais e mais forte. INDEPENDÊNCIA!!! Independência ou morte? Não. Jamais. Todo artista – mesmo o mais dramático – quer criar vidas! O grito que se ouve é: Independência... ou arte!
Sempre carente de incentivos e políticas estruturadas, o terreno cultural brasileiro tem acolhido a explosão do fenômeno da liberdade produtiva. Músicos fazendo sucesso sem a antiga exigência de uma gravadora. Escritores lançando livros sem os grilhões comerciais das editoras. Atores fazendo teatro à custa do próprio suor e das próprias lágrimas. É fácil? Claro que não! Então, é realmente possível sobreviver sem estruturas oficiais? Com a palavra, os heróis deste momento histórico, aqui, na cena paraense.

O produtor cultural Ná Figueiredo, figura importante para esse atual contexto em Belém, começa fazendo um esclarecimento: 'É comum se confundir artista independente com artista alternativo. Na verdade, são coisas distintas. O termo alternativo surgiu na década de oitenta para designar músicos que faziam um som diferente. Artista independente, na minha opinião, é aquele que não está preso a estruturas convencionais. É o caso do cantor que se mantêm sem uma gravadora'. Ná explica ainda que esse movimento tão contemporâneo é resultado de uma conjuntura econômica: 'Com todas as mudanças e crises que temos vivido, o artista precisou se reinventar. Aí surgiu esse nicho. A produção artística independente é agora um nicho de mercado. Muito forte, aliás'.

A tendência é tão viva e imperativa que, ironicamente, toda uma rede estrutural tem sido tecida para manter os que justamente escolhem fugir das redes convencionais. Os independentes já contam com fóruns, inúmeros festivais – bom exemplo disso foi o recente e muito bem sucedido evento realizado na capital paraense pela produtora Se Rasgum -, prêmios como o Dynamite – ao qual concorrem atrações locais como A Euterpia, Madame Saatan e Quaderna, dentre outros – e incontáveis sites, a exemplo do http://palcomp3.cifraclub.terra.com.br/mp3/. Neste endereço é possível acessar um ranking com artistas independentes de cada Estado.

Marisa Brito, vocalista da banda A Euterpia – grupo amado na cena local e hoje radicado em São Paulo para buscar novas vitrines – ressalta: 'Ser independente te dá uma liberdade artística muito maior, já que você não tem obrigação de se moldar para entrar num determinado padrão. Porém, as dificuldades surgem quando você quer realmente viver de música. Porque mesmo não tendo uma gravadora por trás, as pessoas te cobram um rótulo no mercado'. E ela acrescenta: 'Outro ponto que às vezes complica é que atualmente qualquer um pode montar uma banda e jogar na internet. Ganha quem for mais persistente, quem se mostrar mais e não necessariamente quem tem qualidade'.

DISSONANTE

Em meio a toda esta discussão há quem use a voz para entoar certas notas relevantes. É o caso da cantora Ângela Carlos, que está em estúdio finalizando seu novo CD, todo produzido por sua conta e risco: 'Não, eu não gosto de ser independente, pois todo músico que tem um trabalho sério sonha, sim, em ter uma gravadora que possa dar gás ao seu projeto, junto com toda uma equipe de marketing e vendas de shows. E como artista independente, tudo é muito lento'.

Há palcos em que os desafios da independência parecem ainda maiores. O teatro é exatamente um desses tablados. Com mais de vinte anos de carreira, o ator e diretor Paulo Santana dá para o público falas bem questionadoras: 'Acho que na música a coisa da produção independente tem um peso. Nas artes cênicas, tem outro. Na verdade, tudo é bem contraditório. O artista precisa e não precisa de suporte. Temos necessidade de patrocínio, independente do segmento. Hoje, sem isso, não conseguimos erguer uma produção. Mas, por outro lado, o agente cultural deve se construir só. Acho que também tudo passa por uma séria questão política. A Secretaria de Cultura tem obrigação de criar mais e melhores mecanismos de incentivo e gestão do produto cultural'.

LEI DO CAOS

Por entre as páginas da literatura, o enredo é também complexo. Há décadas se dedicando à escrita sem nunca ter contado com uma editora oficial, o poeta Rui do Carmo conta que mesmo os mecanismos já existentes para incentivar a cultura dão vazão a situações difíceis. 'Sempre busco aprovar os meus projetos nas leis de incentivo. Geralmente consigo. Mas há a questão dos patrocinadores. Acabei de perder uma carta de isenção fiscal para meu novo livro, Caso de Trincheira, porque o prazo se esgotou e a promessa de apoio que me fizeram não foi cumprida. É difícil. Muito mesmo'.

Ângela Carlos toma para si o microfone outra vez. Ela precisa desabafar: 'Quero aqui deixar o meu pedido aos empresários desta cidade: tenham mais respeito e cuidado com os artistas da casa. Somos capazes, sim, de chegar ao mercado nacional. E com muita qualidade e competência. Somos um povo musical que sempre levanta a bandeira de sua terra, seja para aplaudir o som, as letras poéticas, o trabalho dos arranjadores, produtores, que não deixam a desejar a ninguém. Por este motivo eu peço: respeitem quando um artista for solicitar a sua parceria para divulgar a sua arte. É sinal de que ele, no mínimo, confia na marca de sua empresa'.

CALYPSO

Entre lutas e revoltas, são notáveis os bons resultados que os independentes têm colhido nos mais variados segmentos. Um dos mais significativos retornos é o apoio do público, razão pela qual produzem. A jovem universitária Danielle Mesquita é uma das paraenses que fazem questão de se colocar na platéia do incentivo: 'Respeito demais os artistas que lutam e persistem sem grandes apoios. Contribuo com minha torcida e carinho. Sou daquelas que vai ao show, que compra o trabalho. Sou fiel mesmo. Sou fã absoluta de grupos como Cravo Carbono e Suzana Flag. Para mim, esses artistas provam que o talento pode criar qualquer base'.

Esse amor e essa fidelidade do público ajudam a consolidar verdadeiros ícones no cenário independente. Um exemplo? A multipoderosa banda Calypso. Você ainda não tinha se perguntado por que a ilustração desta matéria é uma caricatura da insuperável Joelma? Pois saiba: a banda Calypso, hoje, é exemplo máximo em todo mundo de produto cultural que se construiu na esteira do próprio e árduo trabalho. O grupo, nascido aqui no Pará, se transformou em incontestável hit. Tudo na base daquele grito que foi dado lá no início desse texto. Aquele grito que ecoou às margens nunca plácidas da criatividade: INDEPENDÊEEEENCIA!!!

2 comentários:

Claudia disse...

Começa por uma questão de conceito: a arte É independente. O problema é o sistema capitalista que força o artista a formatar sua obra para aceitação do público.
Nas artes visuais não é diferente, e detalhe: sem tiragem, sem bilheteria, nem edição!
Há de sobreviver, sem perder a sensibilidade jamais!

Tainá Nascimento. disse...

aaaah, gostei mesmo do teu blog.
obrigada pela pasagem pelo meu.
beijos